No Oriente Médio, crises raramente eclodem da noite para o dia. Primeiro, peças são retiradas dos holofotes, compromissos discretos são assinados e destacamentos que parecem rotineiros se multiplicam. Só mais tarde, quando tudo se encaixa, é que se percebe que o tabuleiro vinha se preparando para algo maior há tempos.
Agora sabemos que Washington não foi o único a se preparar para isso.
Acordo selado nos bastidores
O Financial Times noticiou, em reportagem exclusiva, que o Irã e a Rússia assinaram um contrato secreto de quase 500 milhões de euros em dezembro, em Moscou, para o fornecimento de 500 lançadores portáteis Verba e 2,5 mil mísseis 9M336. Essa seria a medida mais significativa de Teerã para reconstruir suas defesas aéreas devastadas após a guerra de 12 dias contra Israel.
O pedido iraniano ocorreu poucos dias depois de sua rede integrada ter sido severamente danificada por ataques israelenses e americanos, permitindo que aeronaves inimigas operassem com superioridade sobre grandes áreas do país. O acordo prevê entregas até 2029, embora a mídia tenha explicado que há indícios de remessas antecipadas, e é complementado por óculos de visão noturna e outros equipamentos que apontam para uma reconstrução gradual, porém urgente.
O que são os Verba e por que são importantes?
O Verba é um míssil portátil guiado por infravermelho, projetado para abater drones, mísseis de cruzeiro e aeronaves de baixa altitude, como helicópteros. É operado por pequenas equipes móveis que podem implantar defesas dispersas sem depender de radares fixos vulneráveis a bombardeios.
Não se trata de sistemas estratégicos pesados como o S-300 ou o S-400, mas sim de uma camada tática flexível que complica as operações de helicópteros e voos em baixa altitude. Sua adoção é rápida, requer menos integração e permite que o Irã reforce pontos críticos a um custo relativamente acessível para Moscou, que pode fornecê-los sem enfraquecer substancialmente sua própria defesa contra a Ucrânia.
Porta-mísseis Verba
Aliança militar apesar das sanções
O contrato teria sido negociado entre a Rosoboronexport e o Ministério da Defesa iraniano, com intermediários já sancionados por Washington, num contexto de crescente cooperação que inclui drones iranianos usados pela Rússia na Ucrânia e um tratado bilateral assinado em 2025.
Moscou demonstra, assim, que não tem intenção de acatar as sanções ocidentais ou o embargo de armas reativado pelas potências europeias, enquanto Teerã tenta reparar o relacionamento após a percepção de que a Rússia não a auxiliou durante o último conflito com Israel. O fluxo de voos de carga e o recebimento de helicópteros de ataque Mi-28 reforçam a imagem de uma parceria militar ativa e sustentada.
Maior destacamento desde 2003
O acordo surge em paralelo com um enorme reforço do poder aéreo e naval dos EUA no Oriente Médio, com dezenas de caças F-35, F-15 e A-10 destacados para bases como Muwaffaq Salti, na Jordânia, e Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, além de dois grupos de porta-aviões liderados pelo USS Abraham Lincoln e pelo USS Gerald R. Ford.
No total, cerca de 40 mil soldados e uma frota comparável à anterior à invasão do Iraque em 2003 apoiam as ameaças de Donald Trump de impor um ultimato nuclear a Teerã. O Irã, por sua vez, adverte que responderia atacando bases americanas na região caso fosse atingido.
Reforço que altera cálculo de risco
Os novos sistemas não tornarão o Irã um rival convencional comparável aos Estados Unidos ou a Israel, é claro, nem impedirão campanhas aéreas sustentadas se forem executadas com superioridade tecnológica.
No entanto, podem aumentar o custo e o risco de operações isoladas, especialmente ataques com helicópteros ou ataques a baixa altitude, e prolongar um eventual conflito, dificultando as fases iniciais de supressão aérea. Num ambiente em que cada abate teria um impacto político e estratégico desproporcional, a mera presença de centenas de lançadores móveis introduz uma variável de dissuasão tática.
Corrida de preparação
O que parece bastante claro é que a combinação do rearme iraniano e do destacamento americano pinta um cenário de tensão máxima, em que a diplomacia e a força avançam em paralelo. Teerã procura ganhar tempo, reconstruir as suas defesas e negociar a partir de uma posição menos vulnerável. Washington tenta pressionar com uma demonstração de poder sem precedentes na região nos últimos tempos.
O que acontecer nas próximas semanas determinará não só se haverá um ataque ou uma acordo, mas também se a aliança russo-iraniana se consolidará como um eixo militar capaz de desafiar abertamente o regime de sanções e reconfigurar o equilíbrio estratégico do Oriente Médio.
Imagem | TACC
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