A NTT DATA realizou em 27 de maio o Interconnected 2026, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, com um recado que vai na direção oposta ao discurso predominante no setor de tecnologia. Em vez de associar a inteligência artificial a redução de quadros, a empresa afirma que segue contratando.
A ideia de colocar "o ser humano em primeiro lugar" guiou o evento desde a abertura, feita pelo CEO Jefferson Anselmo. Logo no início da palestra, ele delimitou o tema: "Hoje eu vou falar de IA. Mas não da tecnologia por trás da IA. Hoje vou falar de pessoas, de nós, seres humanos, que fazemos da tecnologia o que queremos que ela seja".
Anselmo rejeitou a premissa de que a IA vai substituir profissionais e de que seus ganhos vêm da economia com pessoal. Para ele, a tecnologia funciona como um amplificador do potencial humano, e não como substituta dele.
O executivo sustentou que o efeito da IA será o oposto da retração de equipes. "A IA vai criar uma explosão de demanda por soluções mais complexas, mais personalizadas, mais humanas. Para atender essa demanda, precisamos de mais pessoas", afirmou. Segundo ele, a posição não é apenas idealista: "enquanto alguns reduzem, continuamos contratando".
Anselmo encerrou seu raciocínio deslocando o foco da máquina para quem a opera. "O motor da inovação não são os processadores, os algoritmos, os processos. O motor da inovação é feito de sinapses: as nossas mentes."
Walsh: liderança deixa de ser sobre ter respostas
Um dos nomes mais aguardados do evento, o futurista Mike Walsh seguiu a mesma linha ao tratar da combinação entre inteligência humana e artificial. Para ele, essa integração muda a natureza do trabalho. "A próxima revolução industrial não é sobre eficiência, é sobre ampliação da capacidade cognitiva."
Walsh dirigiu a projeção diretamente aos gestores. Na visão dele, a função do líder migra de quem responde para quem desenha o sistema que produz respostas. "Liderança não se trata mais de ter as melhores respostas. Trata-se de projetar o sistema que possa gerá-las de forma confiável e em larga escala. Líderes definem a intenção, constroem confiança e se adaptam às situações à medida que o sistema evolui."
Mike Walsh: "A IA não é mais apenas chatbots. São agentes de IA. E além dos agentes, há algo ainda mais poderoso: o trabalho digital."
IBM e Microsoft: da experimentação à operação
O CEO da IBM no Brasil, Marcelo Braga, apresentou a palestra "O futuro não é um destino, é uma decisão", em que defendeu que as escolhas feitas agora vão definir a competitividade das empresas nos próximos anos.
Já o VP de tecnologia da Microsoft no Brasil, Eduardo Campos, indicou uma virada de fase no uso de agentes de IA. "Já houve um tempo de muita experimentação. Agora estamos observando uma abordagem mais profissional dos agentes de IA", disse, ao mostrar casos de uso em uma plataforma integrada.
Cisco e AWS também subiram ao palco para apresentar suas contribuições ao desenvolvimento e à adoção de agentes autônomos no ambiente corporativo.
Tamara Klink fecha o evento com alerta climático
O painel final teve o relato da escritora e navegadora Tamara Klink, embaixadora da NTT DATA, que detalhou suas navegações no Ártico e anunciou uma nova expedição. Ela aproveitou para cobrar uso consciente da tecnologia e chamou atenção para os efeitos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas.
O evento em números
O Interconnected 2026 reuniu 2.500 clientes inscritos e 300 parceiros, distribuídos por 29 estandes. A programação teve mais de 20 apresentações em três palcos e 53 experiências e demonstrações de tecnologia. Entre as marcas presentes estavam Dell, ServiceNow, VMware, Ingram, Palo Alto, Intel e Hitachi, além de IBM, AWS, Google, Microsoft e Cisco.
Para além do palco
Vale o registro de que as falas ocorreram no evento da própria NTT DATA, onde a companhia apresenta o portfólio de serviços que vende. O posicionamento de "contratar enquanto outros cortam" é, antes de tudo, uma sinalização de marca em um momento em que o efeito líquido da IA sobre o emprego ainda é objeto de disputa entre economistas e empresas. O discurso de Anselmo dialoga com esse debate, mas não o encerra.
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