Pesquisadores propõem uma técnica chamada “clareamento de nuvens”, que consiste em borrifar gotículas de água salgada na atmosfera para fazer com que as nuvens reflitam melhor a luz do Sol. A ideia é ajudar a reduzir a temperatura global e proteger ecossistemas mais vulneráveis.
A técnica se baseia em um princípio simples: as partículas de sal funcionariam como núcleos para a formação de gotículas de água nas nuvens. Com isso, essas gotículas se tornariam mais numerosas e menores, aumentando a capacidade das nuvens de refletir a radiação solar de volta para o espaço.
O projeto ainda está em fase de pesquisa e envolve riscos, já que pode afetar os padrões de chuva e o clima em outras regiões. Os pesquisadores reforçam que essa seria apenas uma medida temporária, e não uma solução sustentável para substituir a redução das emissões de carbono.
O projeto MCB e a busca por tempo contra o aquecimento
Pesquisadores da Universidade de Manchester estão acelerando os estudos sobre o “clareamento de nuvens marinhas”, ou Marine Cloud Brightening, conhecido pela sigla MCB. A proposta envolve lançar pequenas partículas de água salgada na atmosfera para aumentar a capacidade das nuvens de refletir a luz solar de volta para o espaço. Trata-se de uma técnica de geoengenharia pensada para aliviar o problema do aumento contínuo da temperatura global.
Além disso, o MCB também poderia ajudar a proteger ecossistemas frágeis em áreas específicas, como a Grande Barreira de Corais, dos efeitos de ondas de calor extremas. A ideia é ganhar mais tempo para que a humanidade consiga reduzir as emissões de gases de efeito estufa de forma sustentável.
A ciência por trás do sal marinho
O processo funciona a partir do aumento do brilho das nuvens sobre os oceanos. Para isso, os pesquisadores borrifam água do mar em gotículas minúsculas no céu, permitindo que o sal atue como núcleo de condensação das nuvens.
Essas partículas de sal marinho funcionam como uma espécie de base para facilitar a formação de gotículas de água nas nuvens, aumentando sua quantidade. Com mais gotículas pequenas dentro da nuvem, a superfície total dessas gotículas cresce, o que também aumenta a capacidade de refletir a radiação solar.
Esse mecanismo imita um fenômeno natural: as partículas de água do mar já ajudam, naturalmente, a deixar as nuvens mais claras. Ele também reproduz, em parte, os efeitos das emissões de navios no passado. Com mais reflexão da luz solar, parte da radiação térmica deixa de chegar à superfície da Terra, o que ajuda a reduzir a temperatura na região afetada.
Testes em laboratório de três andares
O projeto de pesquisa se chama REFLECT e recebeu um grande financiamento da Advanced Research and Invention Agency, a ARIA, órgão do governo do Reino Unido voltado a pesquisas e invenções de alto impacto. A iniciativa faz parte de um programa que investiga formas de resfriar o planeta diante da crise climática.
A equipe realiza experimentos dentro de uma câmara de simulação de nuvens feita de aço inoxidável e com altura equivalente a três andares. Esse laboratório permite que os cientistas testem se as gotículas de água do mar conseguem aumentar o brilho das nuvens a ponto de influenciar, de fato, a reflexão da luz. Neste momento, os pesquisadores buscam o tamanho ideal das partículas de sal.
Se as partículas forem grandes demais, podem absorver umidade em excesso e impedir a formação das gotículas menores. Mas, se forem pequenas demais, talvez não consigam estimular a formação das gotículas necessárias para aumentar o brilho das nuvens.
O professor Hugh Coe, líder da pesquisa, afirma que a equipe já tem segurança de que o método pode funcionar. Ainda assim, ele reforça que é preciso entender melhor como a pulverização dessas gotículas pode afetar a interação entre gotículas de água, ventos e correntes oceânicas.
Próximos passos e testes reais a partir de 2028
Se os testes em laboratório e os modelos computacionais forem bem-sucedidos, pequenos experimentos em ambiente real poderão acontecer, no cenário mais otimista, a partir de 2028. Esses testes teriam que ser transparentes, limitados no tempo e reversíveis imediatamente após sua conclusão.
Mark Symes, diretor de programa da ARIA, afirma que, embora a redução de carbono seja a única solução sustentável, ela não está avançando rápido o suficiente para proteger o planeta. Por isso, a geoengenharia aparece como uma possibilidade a ser estudada, mas com a necessidade de dados científicos neutros para avaliar se essas tecnologias podem ser usadas com segurança.
Os riscos e o "risco moral" da geoengenharia
De modo geral, a geoengenharia envolve riscos e incertezas que ainda preocupam os cientistas. O clareamento de nuvens pode alterar os padrões regionais de chuva, o que poderia agravar enchentes em algumas áreas.
Ao mesmo tempo, simulações computacionais indicam que o clareamento de nuvens também poderia afetar correntes no Oceano Atlântico e gerar instabilidades. Enquanto algumas regiões, como Índia e Austrália, poderiam ficar mais frias e úmidas, áreas como os Estados Unidos poderiam se tornar mais quentes e secas até o fim do século.
O uso dessas tecnologias também pode gerar o chamado “risco moral”. Na prática, isso significa que a adoção da geoengenharia poderia virar uma justificativa para que políticos e empresas deixassem de se preocupar com a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Por isso, as pesquisas atuais precisam seguir regras rígidas de governança e envolver uma escuta ampla da sociedade. A avaliação de impacto ambiental, conhecida como EIA, é considerada indispensável e deve ser divulgada ao público antes de qualquer teste em campo.
Uma ferramenta paliativa, não a cura
A ARIA foi criada para apoiar projetos de alto risco e alto potencial de retorno, com o objetivo de estimular descobertas científicas importantes. O apoio tanto do Partido Conservador quanto do Partido Trabalhista, no Reino Unido, mostra a relevância da busca por soluções para a crise climática.
Neste momento, a equipe de pesquisa trabalha no desenvolvimento de pulverizadores de baixo consumo energético, capazes de controlar com precisão o tamanho das gotículas para garantir resultados consistentes. A pesquisa deve ajudar o mundo a obter dados mais claros sobre a segurança e a viabilidade de incluir esse tipo de intervenção climática em estratégias globais.
Ainda assim, a técnica de clareamento de nuvens não é uma alternativa à redução das emissões de carbono. Ela seria apenas uma ferramenta temporária, capaz de aliviar parte do aquecimento enquanto a humanidade segue enfrentando, de forma séria, a causa central do aquecimento global.
Texto traduzido e adaptado do bangkokbiznews.
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