Nova análise comprova: os romanos usavam mesmo fezes em tratamentos médicos

Os médicos disfarçavam o cheiro com outras substâncias

Império Romano / Imagem:  Clayton Majona e Heinz Schneider
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O Império Romano construiu uma impressionante rede de esgoto e diversos edifícios públicos voltados à higiene, como as termas e as latrinas. No entanto, sabe-se que viviam em condições de alta contaminação fecal e que Roma, apesar dos esforços dos romanos, não cheirava bem.

Existem até mesmo textos de autores clássicos, como o naturalista Plínio, o Velho, que falam claramente sobre o uso de excrementos para curar doenças. No entanto, não havia provas que demonstrassem que esses remédios à base de fezes fossem realmente aplicados, porque a medicina antiga era, em parte, uma mistura confusa de fórmulas teóricas que nem sempre chegavam ao paciente.

Mas isso mudou agora. Uma análise química de um frasco medicinal da época romana, publicada no Journal of Archaeological Science: Reports, confirma que os romanos acreditavam que os excrementos eram medicinais.

O professor de arqueologia da Universidade de Cumhuriyet (Turquia), Cenker Atila, estava trabalhando nos depósitos do Museu de Pérgamo quando percebeu que vários frascos de vidro do século II d.C. ainda continham uma crosta de resíduos, então decidiu investigar o que havia ali.

Após selecionar um com formato de candelabro, chamado unguentarium, normalmente destinado a guardar perfume ou maquiagem, Atila e sua equipe de pesquisa rasparam cuidadosamente o resíduo e o analisaram por meio de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas, técnica que serve para analisar e quantificar traços de compostos em misturas complexas com alto grau de eficácia.

O que a análise descobriu

Os resultados do GC-MS revelaram compostos como o coprostanol e o 24-etilcoprostanol, que são biomarcadores produzidos única e exclusivamente a partir da digestão humana e animal. Essa descoberta constitui a primeira prova química direta de que os romanos usavam fezes com fins terapêuticos.

Também é preciso levar em conta que o frasco provém de Bergama (a antiga Pérgamo), cidade natal de Galeno, o médico por excelência do Império Romano. O ilustre cirurgião viveu ali entre os anos 129 e 216 d.C., período que coincide com a datação do frasco.

Os resultados também mostraram a presença de carvacrol, que é o composto aromático característico do tomilho. A equipe de pesquisa propõe que os médicos romanos misturavam fezes com ervas de aroma intenso, como o já mencionado tomilho ou o orégano, para assim mascarar o cheiro, tornando o tratamento mais suportável.

Para além da piada de imaginar alguém se borrifando com fezes, a realidade é que, atualmente, os excrementos têm sim uso medicinal. Alguns tratamentos para infecções intestinais graves, como a Clostridioides difficile, incluem transplantes de microbiota fecal. Nesse sentido, os médicos romanos eram avançados para o seu tempo.

Imagem | Clayton Majona e Heinz Schneider

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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