Em 1967, uma guerra fechou o Canal de Suez por oito anos; meio século depois, o Estreito de Ormuz está à beira do mesmo abismo

Enquanto Wall Street confia cegamente em um cessar-fogo iminente e os mediadores debatem, a inércia logística que nos protegeu da escassez tem prazo de validade

Imagem de capa | Jens Rademacher no Unsplash
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
fabricio-mainenti

Fabrício Mainenti

Redator

Quando a guerra entre Egito e Israel eclodiu em 1967, quinze navios mercantes ficaram presos no Canal de Suez. Os capitães lançaram âncora, supondo que teriam que esperar apenas alguns dias para o fim dos combates. Estavam certos quanto à duração das hostilidades: foi a Guerra dos Seis Dias.

No entanto, foram necessários oito anos para que o canal fosse reaberto. Quando os navios finalmente puderam zarpar em 1975, apenas dois ainda estavam em condições de navegar. Os demais estavam tão enferrujados sob o sol do deserto que ficaram conhecidos como a "Frota Amarela".

Quase sessenta anos depois, a história se repete no Golfo Pérsico. Noventa dias após o conflito entre os Estados Unidos, Israel e Irã ter bloqueado o Estreito de Ormuz no final de fevereiro, a rota marítima mais importante do mundo permanece fechada. Dezenas de petroleiros aguardam ancorados, na esperança de um acordo diplomático que sempre parece iminente, mas nunca chega.

A armadilha do otimismo em Wall Street

O analista Javier Blas, em sua coluna para a Bloomberg, expõe a perigosa complacência com que o mundo está encarando esse fechamento. O setor financeiro opera sob uma versão adaptada da Lei de Stein:

"O estreito não pode ser fechado para sempre porque causaria muitos danos econômicos; portanto, ele se reabrirá em breve".

O problema com essa lógica é que a economia ainda não infligiu a dor necessária para forçar a paz. Como Blas aponta:

  • Para Washington: A guerra está se mostrando politicamente barata. A economia dos EUA está em alta, com crescimento trimestral superior a 4%, e o índice S&P 500 está se aproximando de recordes históricos, tendo subido quase 10% desde o início do conflito;
  • Para Teerã: Embora a moeda esteja despencando e a inflação esteja sufocando a população, o regime iraniano demonstra há décadas uma capacidade quase inesgotável de absorver punições econômicas quando percebe uma ameaça existencial.

Enquanto mediadores buscam um acordo em Islamabad, a inércia mantém a ilusão de normalidade. O mercado absorveu o desaparecimento de cerca de 20 milhões de barris por dia graças aos estoques acumulados e às liberações maciças de reservas estratégicas. Mas o tanque global está secando.

Junho: o fim da inércia logística

Se não vemos escassez nas ruas, é simplesmente devido à física do transporte: um superpetroleiro se move na velocidade de uma bicicleta. O combustível consumido pelo Ocidente na primavera deixou o Golfo antes mesmo do primeiro míssil atingir o alvo.

No entanto, os dados já revelam as falhas do sistema. A demanda global caiu 5 milhões de barris por dia em abril, a maior queda no consumo desde o início da pandemia de COVID-19. E o impacto já é sentido internamente: a Funcas alerta que, se o conflito continuar, a inflação espanhola, por exemplo, ultrapassará os 4% e o crescimento cairá para 1,8%.

Além disso, a sobretaxa de combustível multibilionária para companhias aéreas como Iberia e Vueling ameaça diretamente a viabilidade do turismo espanhol.

O verdadeiro precipício tem data marcada: junho. Com a chegada do verão europeu, a alta temporada de viagens de carro e o uso massivo de ar-condicionado irão colidir com os estoques em níveis historicamente baixos. Além disso, uma reabertura diplomática não resolveria o problema físico: a remoção das minas do Estreito de Ormuz, com mais de um quilômetro de largura, exigiria meses de complexas operações navais.

No entanto, o impacto desta crise vai muito além dos postos de gasolina. À medida que a escassez física de petróleo bruto se torna inegável, as repercussões mais graves estão se formando dentro do sistema financeiro global:

  • A ruptura do petrodólar: O acordo tácito de 1974, que garantia segurança no Golfo em troca da venda de petróleo bruto em dólares e seu reinvestimento em dívida americana, está se desfazendo. Países como a Índia estão vendendo seus títulos do Tesouro americano para obter liquidez e pagar pelo petróleo, que está muito mais caro;
  • O mercado de títulos: A persistente inflação de energia elevou os rendimentos dos títulos soberanos. O rendimento dos títulos do Tesouro americano com vencimento em 30 anos ultrapassou 5,15%;
  • O custo de vida real: se os títulos do governo renderem mais de 5%, as hipotecas de 30 anos se aproximam inexoravelmente de 7%. Isso se traduz em empréstimos mais caros, menos investimentos empresariais e um mercado imobiliário paralisado. Como alertam diversos analistas, desfazer os danos econômicos da crise de Ormuz pode exigir uma recessão induzida para conter os custos de empréstimo.

O contorno do deserto

Enquanto o mundo aguarda, alguns atores já descartaram o Estreito de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos aceleraram urgentemente a construção de um enorme oleoduto que contorna o estreito, com o objetivo de exportar 3,5 milhões de barris por dia diretamente para o Golfo de Omã até 2027.

Trata-se de um "planejamento prudente para o pior cenário" e um sinal claro de que Abu Dhabi acredita que a hidrovia poderá permanecer ameaçada por anos.

Há meio século, ninguém imaginava que 15 navios passariam uma década apodrecendo ao sol em Suez por causa de uma guerra que durou menos de uma semana. Hoje, o mundo presume que a crise de Ormuz será um revés temporário. Mas, com o passar dos dias, as reservas se esgotam e os mercados financeiros rangem. O petróleo, simplesmente, continua à espera no mar.

Imagem de capa | Jens Rademacher no Unsplash


Inicio