Quando Moshe Safdie projetou o Habitat 67 enquanto estudante de arquitetura, teve uma ideia revolucionária: usou milhares de peças de Lego para testar como os módulos habitacionais se encaixariam em três dimensões. Décadas depois, o próprio arquiteto ainda se lembrava de esvaziar lojas inteiras de Lego em Montreal para construir as maquetes. E talvez tenha criado um problema.
Reinventando a habitação como Lego
No início da década de 1960, as cidades ocidentais estavam presas entre dois modelos aparentemente inevitáveis: enormes blocos de apartamentos impessoais ou subúrbios intermináveis e dependentes de automóveis. Um jovem estudante de arquitetura chamado Moshe Safdie acreditava que havia uma terceira via.
Sua ideia era aparentemente simples e radical ao mesmo tempo: construir casas pré-fabricadas empilhando módulos de concreto como peças gigantes de Lego, para que cada família pudesse ter luz, um terraço, áreas verdes e a sensação de um lar individual dentro de uma grande estrutura urbana. O projeto acabou se tornando o Habitat 67, o grande ícone futurista da Expo Montreal. O que o Canadá apresentou ao mundo como o futuro definitivo das cidades acabou se tornando uma das obras arquitetônicas mais fascinantes e problemáticas do século XX.
Habitat 67 era utopia
A imagem do edifício ainda parece futurista mesmo hoje: 354 enormes módulos pré-fabricados de concreto, cada um pesando cerca de 90 toneladas, empilhados em formas irregulares em uma península artificial de frente para o Rio São Lourenço. Safdie era obcecado em resolver um problema que considerava central para o futuro urbano: como manter a densidade da cidade sem sacrificar a privacidade, a natureza e a sensação de lar.
Seu lema era "Um jardim para cada um". Cada apartamento deveria ter seu próprio jardim, ventilação cruzada, vistas panorâmicas e passarelas elevadas para pedestres em vez de corredores fechados. A inspiração veio tanto das casas de aldeia do sudoeste americano quanto do metabolismo japonês — um movimento arquitetônico que idealizava edifícios compostos por células modulares capazes de crescer e se reorganizar como organismos vivos.
O grande problema: baixar o preço
O paradoxo do Habitat 67 é que ele foi concebido justamente para reduzir o custo da habitação urbana… e acabou custando muito mais do que o previsto. Safdie imaginou que a pré-fabricação industrial permitiria a produção em massa rápida e eficiente de apartamentos, mas a realidade foi bem diferente. O complexo exigiu um sistema de montagem extremamente sofisticado, uma fábrica construída no local, guindastes gigantescos e conexões técnicas incrivelmente complexas entre os módulos.
Cada unidade tinha que sair da fábrica praticamente pronta, com janelas, fiação elétrica, banheiros e cozinhas já instalados, antes de ser içada para sua posição final. A redução do projeto original (de 1,2 mil unidades planejadas para apenas 158) aumentou ainda mais os custos. O experimento, concebido para democratizar a cidade, acabou se tornando um complexo muito caro, mesmo para a classe média que pretendia atrair.
Infiltrações e mofo
Com o tempo, surgiu outro grande inimigo do Habitat 67: a água. A estrutura escalonada, repleta de terraços, jardins e conexões entre os módulos, criou um verdadeiro pesadelo de impermeabilização. O concreto começou a sofrer infiltrações constantes devido ao clima extremo de Montreal, e a água acabou penetrando nas paredes e nos sistemas de ventilação. Alguns moradores relataram sérios problemas com umidade e mofo por anos.
Os reparos nunca foram fáceis, pois o edifício não funciona como um bloco convencional: cada módulo é uma parte estrutural de uma estrutura tridimensional extremamente complexa. Meio século depois, as restaurações ainda são quase cirúrgicas. A grande reforma realizada para o 50º aniversário exigiu a desmontagem das camadas externas, o reisolamento de enormes superfícies e a reformulação de sistemas inteiros para proteger a estrutura dos invernos canadenses.
Do sonho social ao símbolo de elite
Outra ironia marcante do Habitat 67 é a sua evolução social. O que começou como um manifesto por habitação urbana acessível acabou se tornando um dos endereços mais exclusivos de Montreal. Os aluguéis originais já eram proibitivos na década de 1960, e a privatização subsequente transformou os apartamentos em propriedades de luxo.
Hoje, algumas unidades chegam a custar milhões, e os custos mensais de manutenção são exorbitantes. A “cidade para todos” acabou se tornando um enclave para elites culturais, empresários e entusiastas da arquitetura. No entanto, até mesmo seus críticos admitem que o edifício alcançou algo extraordinário: demonstrar que habitações densas poderiam ser emocionalmente distintas dos blocos repetitivos que dominavam o planejamento urbano moderno.
Projeto nunca morreu de verdade
O mais fascinante é que, apesar de todos os seus problemas, o Habitat 67 continua a exercer uma enorme influência sobre arquitetos e urbanistas. Décadas depois, ele continua a inspirar projetos modulares, complexos em terraços e novas ideias sobre como combinar densidade urbana e qualidade de vida. Até mesmo as ferramentas digitais atuais ressuscitaram o projeto original, que nunca chegou a ser construído.
Nos últimos anos, a Safdie Architects e a Epic Games recriaram virtualmente o gigantesco "Projeto Hillside", que o governo canadense interrompeu devido à falta de verbas na década de 1960. Graças à Unreal Engine, drones e modelos hiper-realistas, o arquiteto pôde percorrer, pela primeira vez, a versão completa da cidade modular que imaginara quando jovem.
Há algo profundamente simbólico nessa imagem: o Habitat 67 era tão ambicioso que nem mesmo a tecnologia da época conseguiu torná-lo totalmente viável. Talvez seja por isso que ele continua a fascinar até hoje. Porque parece uma relíquia do passado... mas também uma visão de um futuro urbano que ainda não sabemos como construir sem que desmorone sob o peso de infiltrações, custos exorbitantes e reparos intermináveis.
Imagem | Parcours riverain - Ville de Montréal, Thomas Ledl, Vassgergely
Ver 0 Comentários