Relato de Javier Jiménez, do Xataka Espanha
Basta dar um passeio por Málaga, na Espanha, para se deparar com dezenas de plaquinhas azuis com duas letras: “AT”. Ou seja, “apartamentos turísticos”. Isso já acontece há muito tempo, mas, nos últimos anos, a pressão turística tem se tornado cada vez mais intensa.
Talvez por isso, em quase toda placa de AT, seja possível ver adesivos com frases como “AnTes esta era minha casa”, “Prefeito Turismorto”, “Vai pra tua casa, p***a”, “EmpesTando de turista”. Essas manifestações oferecem um retrato de como o mesmo problema é abordado de formas completamente diferentes, dependendo da época.
Qualquer pessoa que conheça um pouco de Kant sabe que ele não era exatamente um revolucionário. O filósofo alemão mal saiu de sua cidade às margens do Báltico e, de fato, era famoso por seguir uma rotina tão exata que os vizinhos podiam acertar a hora do relógio com base em seus passeios.
É claro que ele não tinha sangue nas veias para expulsar ninguém de Königsberg. No entanto, em Sobre a Paz Perpétua (1795), desenvolveu uma ideia que, trazida para os dias de hoje, pode nos ajudar a entender os limites do turismo: a da hospitalidade.
Hospitalidade? Historicamente, esse conceito serviu aos teóricos da Escola de Salamanca para justificar a conquista da América e a Kant para expulsar pessoas de sua cidade. O diabo, como sempre, está nos detalhes.
Afinal, qualquer conceito de hospitalidade filosoficamente desenvolvido se concentra nos limites: parte do reconhecimento de que o estrangeiro tem o direito de não ser tratado com hostilidade, desde que venha em paz. Ou seja, ele tem direito à visita, a fazer turismo pelas cidades europeias.
Onde começa o problema
Mas (e aqui está o cerne da questão), aquilo a que ele não tem direito é reorganizar o lugar ao seu gosto. Kant usa a ideia de “conduta inóspita” para condenar as potências ocidentais: para elas, “visitar” ou “comerciar” significava tratar as terras como se não tivessem dono e seus habitantes como se não fossem “nada”. A “hospitalidade” não pode se transformar em uma forma de remodelar em benefício próprio o lugar ao qual se chega.
Para entender as nuances contemporâneas, convém trazer à discussão a filósofa albanesa Lea Ypi e sua atualização do conceito kantiano de colonialismo. Em seus trabalhos sobre esse tema, Ypi aponta que o problema não está na origem de quem chega, nem no fato de os nativos terem uma espécie de “propriedade” sobre o território: o problema está nas dinâmicas que negam aos moradores locais uma relação de igualdade com os visitantes.
Ou seja, a turistificação não é ruim porque enche as cidades de turistas estrangeiros, mas porque é um fenômeno que, amparando-se na indefinição, reorganiza a cidade em benefício de quem vem de fora e, de quebra, expulsa quem vive nela.
Assim, o problema moral não é o imigrante que chega a uma comunidade e se integra a ela para fortalecê-la; o problema é aquele que chega para desgastá-la e colocá-la a seu serviço (ainda que não seja com exércitos e canhões, mas por meio de uma assimetria nas relações econômicas). Como lembra a teórica Margaret Moore, “residentes” são definidos por terem a vida vinculada a um lugar, não por terem nascido nele (ou por possuírem propriedades ali).
Em muitos casos, essa turistificação só é possível graças à colaboração necessária de muitos “nativos” que enriquecem com isso. No entanto, esse argumento costuma ignorar que, embora essas pessoas tenham direitos concretos de propriedade, que têm o direito de explorar, elas também têm uma responsabilidade fiduciária em relação ao bem comum.
Os proprietários que colocam grupos de turistas de forma indiscriminada em condomínios residenciais, a ponto de torná-los inabitáveis, não estão exercendo seu direito; estão ignorando suas responsabilidades para com a comunidade de moradores e com a cidade na qual realizam essa atividade.
Ou seja, não é uma questão de quem, mas de quê.
A distinção é frágil, é verdade. Mas é útil para entender “o que está errado” na turistificação. E, para algo escrito há mais de 200 anos por um sujeito bastante problemático de Königsberg (que, até onde sabemos, nunca pisou em uma praia), não está nada mal.
Imagem | Xataka
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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