Ser canhoto não é a característica mais comum, mas aproximadamente 10,6% da população mundial é canhota. De uma perspectiva puramente evolutiva, isso sempre representou um enigma para os biólogos, já que, se ser destro é a norma e facilita a cooperação e o uso de ferramentas padronizadas para todos, surge uma questão essencial: por que a seleção natural não erradicou a "canhotice" ao longo dos milênios?
Investigando
A resposta para essa pergunta parece estar profundamente enraizada em nossa natureza competitiva. Pelo menos, é o que sugere um estudo publicado em meados de fevereiro, lançando mais luz sobre esse enigma e confirmando que os canhotos são, psicológica e evolutivamente, muito mais competitivos.
Na mente
A equipe de pesquisa, neste caso, analisou minuciosamente a relação entre lateralidade, sexo e competitividade. Para isso, avaliaram mais de 1.100 questionários online que calculavam o Quociente de Lateralidade, que mede a preferência por usar um lado do corpo, e cruzaram os dados com testes como o Teste de Encaixe de 9 Pinos, que mede a destreza manual.
Os resultados
Ficou claro que os canhotos apresentam níveis significativamente mais altos de "hipercompetitividade". Além disso, demonstram menor tendência a evitar a competição por ansiedade e, curiosamente, o estudo mostrou que essa sede de vitória não está correlacionada com maior destreza física pura, mas sim com uma característica profundamente psicológica.
O que isso significa?
Nesse caso, o estudo reforça uma teoria biológica proposta anteriormente: a Estratégia Evolutivamente Estável. Essa teoria sugere que a evolução humana é uma constante disputa entre cooperação e competição dentro de uma espécie. Se aplicarmos isso ao nível populacional, a maioria destra garante a cooperação social e a padronização, permitindo que todos usem as mesmas ferramentas.
No entanto, em um mundo onde todos competem sob as mesmas regras, ser "diferente" concede uma vantagem tática inestimável, algo conhecido como "hipótese da luta". Assim, sendo uma minoria de 10%, os canhotos desfrutam de um efeito surpresa no combate corpo a corpo, já que os destros não estão acostumados a se defender de ataques vindos da esquerda.
Uma vantagem
Um estudo de 2019 com mais de 13.800 boxeadores e lutadores de MMA confirmou que os canhotos, tanto homens quanto mulheres, venceram uma porcentagem significativa de lutas. O mesmo acontece no futebol, onde ser canhoto é considerado uma vantagem tática e técnica, oferecendo esse elemento surpresa ao adversário, que não espera um chute com a perna oposta à que está acostumado a ver, já que a maioria dos jogadores de futebol é destra.
Além disso, a simetria cerebral dos canhotos geralmente facilita o controle de ambas as pernas.
Para sobreviver
Assim, a ciência sugere que a evolução não apenas dotou os canhotos de uma vantagem baseada no elemento surpresa, mas também moldou seu perfil psicológico de modo que eles buscam e não temem cenários competitivos nos quais têm vantagem.
Portanto, ser canhoto está longe de ser uma mera anomalia ou uma "falha" no sistema evolutivo; pelo contrário, é um mecanismo perfeitamente equilibrado pela natureza.
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