Por décadas, o motor de combustão interna reinou absoluto na indústria automotiva. Contudo, na Volkswagen, alguns já começam a vislumbrar um futuro onde a gasolina e o diesel representem apenas um nicho de mercado. Para ilustrar essa transição, um dos executivos mais influentes do grupo alemão escolheu uma comparação inesperada: a do cavalo. Uma imagem provocativa que diz muito sobre a visão da Volkswagen para o mercado automotivo em 2035.
A eletrificação da frota de carros europeia continua sendo controversa. Entre debates sobre a proibição de motores de combustão interna, preocupações com a infraestrutura de recarga e a concorrência chinesa que está desestabilizando o equilíbrio industrial, as montadoras às vezes caminham em uma corda bamba. A Volkswagen, que já investiu dezenas de bilhões de euros em sua transição para a eletricidade, acredita, no entanto, que a questão pode estar sendo mal formulada.
Para a Volkswagen, proibição dos motores de combustão interna é um debate falso
Martin Sander, membro do conselho da Volkswagen responsável por vendas, marketing e pós-vendas, acredita que o debate europeu em torno da proibição dos motores de combustão interna está desviando a atenção da verdadeira questão. Em entrevista à Auto Express, o executivo alemão usou uma comparação simples, porém provocativa.
"Vocês sabem quando os cavalos foram proibidos?", perguntou, antes de ressaltar que ainda é possível comprar um cavalo hoje em dia. No entanto, "quase ninguém mais os usa para transporte diário. Não porque uma lei proíba, mas porque uma tecnologia mais prática naturalmente se consolidou."
Segundo Martin Sander, o carro elétrico poderia seguir exatamente o mesmo caminho.
Para Martin Sander, chefe de vendas e marketing da Volkswagen, a transição para veículos elétricos será menos uma revolução imposta do que uma mudança cultural, comparável à transição do cavalo para o carro. © Volkswagen
Levantar o espectro de uma proibição provoca resistência
Segundo ele, concentrar o debate em prazos regulatórios, como o fim planejado das vendas de veículos com motor de combustão interna em vários países europeus a partir de 2035, não ajuda a convencer os motoristas. Pelo contrário.
Não se conquista as pessoas dizendo constantemente que um dia seus hábitos serão proibidos.
Ele ressalta que a maioria dos motoristas atuais passou décadas se familiarizando com o motor de combustão interna (seus sons, seus cheiros, suas limitações). Dizer a eles que esse "normal" tem prazo de validade dificilmente os motiva.
Pelo contrário, isso solidifica posições e reforça a postura defensiva. Ele resume tudo em uma frase: "Como podemos convencer as pessoas sobre uma nova tecnologia se só falamos sobre quando a antiga será proibida?" O executivo acredita que a indústria deveria enfatizar os benefícios tangíveis dos veículos elétricos em vez das restrições impostas aos motores de combustão interna.
Aproveitando alavancas positivas para promover a transição
Para Sanders, a verdadeira questão é remover as barreiras que dificultam a adoção de veículos elétricos. Isso começa com a infraestrutura de recarga, que ainda é muito inconsistente entre países e regiões. Enquanto encontrar uma estação de recarga confiável continuar sendo um desafio estratégico, alguns motoristas permanecerão fortemente apegados à gasolina.
Em seguida, surge o tema da mensagem: demonstrar as vantagens concretas dos veículos elétricos, como o funcionamento silencioso, a flexibilidade e os custos operacionais mais baixos, em vez de ficar constantemente a levantar o fantasma das Zonas de Baixas Emissões e dos prazos.
Por fim, resta a questão dos preços da energia. Enquanto as contas de luz permanecerem imprevisíveis, principalmente nos horários de pico ou ao usar redes de supercarregadores, a promessa de economia em comparação com os combustíveis convencionais será vista como frágil. Segundo ele, é combinando essas três alavancas — estações de carregamento, educação e preço — que alcançaremos um "efeito cavalo": uma maioria de consumidores que espontaneamente considerará os veículos elétricos mais adequados para o seu dia a dia.
Na estrada, ainda é muito difícil saber com precisão qual será o preço de uma recarga. © Ionity
Nesse cenário, ele não descarta alguma resistência remanescente. Ele menciona, inclusive, para 2035, um segmento de "3% a 5%" de compradores que ainda preferirão um motor a combustão. Mas, segundo ele, o objetivo não é atingir 100% de veículos elétricos por decreto, mas sim garantir que, estatisticamente, os motores de combustão interna se tornem um nicho de mercado, assim como a equitação é hoje apenas uma atividade de lazer ou competição em comparação com os carros.
Volkswagen continua estratégia de eletrificação
A Volkswagen está simultaneamente seguindo uma estratégia relativamente pragmática. Ao contrário de alguns fabricantes chineses, o grupo alemão não planeja importar seus veículos elétricos com extensor de autonomia (REEVs) para a Europa. Muito populares na China, esses veículos combinam propulsão elétrica com um pequeno motor de combustão interna cuja única função é gerar eletricidade quando a bateria se esgota.
Para Martin Sander, essa tecnologia atualmente atende a uma demanda específica no mercado chinês, mas ainda não tem potencial suficiente na Europa.
Novo Volkswagen ID
A Volkswagen prefere continuar focando em uma ampla gama que atenda a todas as necessidades atuais: motores a gasolina tradicionais, híbridos leves, híbridos completos, híbridos plug-in e modelos 100% elétricos.
Essa estratégia é acompanhada por uma renovação acelerada da linha elétrica. O grupo está preparando, em particular, a chegada do ID. Polo, que pretende ser a alternativa elétrica ao popular carro urbano a gasolina, enquanto uma grande evolução do ID.3 e uma atualização significativa do ID.4 também são esperadas.
Imagens | Volkswagen, dr
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