Em 1991, a Itália viu que um velho cargueiro estava se aproximando; quando atracou, milhares de pessoas estavam a bordo

Ao longo dos anos, as imagens do Vlora passaram a simbolizar muito mais do que uma crise migratória

(Reprodução)
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Bárbara Castro

Redatora

O mais recente caso em Ceuta, cidade autônoma da Espanha, mais uma vez lembrou que uma fronteira pode mudar em questão de horas quando milhares de pessoas decidem cruzá-la ao mesmo tempo. A Europa já viveu uma cena semelhante há 35 anos, embora naquela época o protagonista foi navio cargueiro monstruoso, tão lotado que parecia impossível continuar flutuando.

Foi na manhã de 8 de agosto de 1991, quando os trabalhadores do porto de Bari contemplaram uma cena difícil de acreditar. Ao longe, um velho cargueiro enferrujado avançava lentamente em direção ao cais, com pessoas ocupando absolutamente todos os espaços imagináveis: convés, escadas, corredores, corrimãos e até penduradas nas laterais.

A bordo estavam entre 10.000 e 20.000 albaneses amontoados após terem tomado o Vlora no dia anterior no porto de Durrës, liderando uma das maiores chegadas de migrantes por mar que a Europa experimentou nos últimos tempos.

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Essa jornada começou muito antes do navio zarpar. A queda do regime comunista mergulhou a Albânia em um colapso econômico e social, com fábricas fechadas, escassez de alimentos e um futuro que parecia desaparecer por uma geração inteira.

A Itália, localizada a menos de 150 quilômetros do outro lado do Adriático e transformada em vitrine de prosperidade graças à televisão, tornou-se a única saída possível para milhares de famílias.

O curioso é que o Vlora nem sequer estava preparado para transportar passageiros. Ele tinha retornado de Cuba com uma carga de açúcar e precisava de reparos quando uma multidão invadiu o porto e começou a embarcar em qualquer navio que pudesse cruzar o Adriático.

Muitas pessoas pularam na água para alcançar o casco e subiram cordas e escadas até um barco onde ninguém mais cabia. O capitão do navio, Halim Milaqi, decidiu partir quando entendeu que impedir aquilo poderia acabar em tragédia. Navegando com motores auxiliares, sem radar e com sérios problemas mecânicos, milhares de pessoas suportavam mais de um dia com quase nenhuma água, comida ou espaço para se mover.

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As autoridades italianas tentaram impedir o desembarque, desviando o navio e até bloqueando parcialmente a entrada do porto, mas não funcionou. O capitão insistiu que estava ferido e que o estado do barco tornava impossível retornar. Quando o Vlora atracou em um cais destinado a descarregar carvão, o governo ordenou que impedissem a dispersão dos passageiros e acelerassem seu retorno à Albânia. No entanto, gerenciar uma chegada de tamanha magnitude se mostrou muito mais complicado do que o esperado.

Milhares de pessoas foram transferidas para o Stadio della Vittoria, um antigo local esportivo que se tornou um enorme centro de detenção improvisado. Não demorou para ficar claro que a maioria seria repatriada, o que levou a tentativas de fuga, confrontos com a polícia e cenas de enorme tensão.

Alguns conseguiram escapar e permanecer na Itália, enquanto outros foram enviados de volta à Albânia dias depois, em uma apresentação que recebeu críticas de organizações humanitárias e do próprio Vaticano.

Ao longo dos anos, as imagens do Vlora passaram a simbolizar muito mais do que uma crise migratória. Eles refletem o momento em que um país inteiro acreditava que o futuro estava do outro lado do mar e decidiu se lançar contra ele por literalmente qualquer meio possível.

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Alguns desses passageiros conseguiram reconstruir suas vidas em outros países décadas depois, outros retornaram à Albânia. Seja como for, a fotografia do cargueiro coberto por milhares de pessoas continua sendo uma das imagens mais poderosas e chocantes da história recente da Europa e um lembrete de até onde alguém pode ir quando sente que não tem mais nada a perder.

Matéria traduzida de Xataka*


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