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Game francês coloca jogador como marido de refugiada síria e usa mensagens reais de WhatsApp entre os dois para recriar realidade da guerra

Bury Me, My Love leva a representação da guerra ao extremo com uma história real

Bury Me, My Love
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Já se passaram 11 anos desde que o jornal francês Le Monde publicou a transcrição de uma conversa de WhatsApp entre Dana, uma jovem síria que fugia da guerra, e seus familiares. A jornalista Lucie Soullier conseguiu que Dana compartilhasse suas mensagens durante a travessia da Síria até a Alemanha e o resultado foi tão íntimo quanto perturbador: o horror de uma crise humanitária contado por meio de emojis e com o tipo de frases que qualquer pessoa poderia enviar a um ente querido. Florent Maurin, jornalista que se tornou designer de videogames, leu a reportagem e decidiu transformá-la em um jogo.

O resultado foi Bury Me, My Love, um título no qual o jogador interpreta Majd, o marido que permanece na Síria enquanto sua esposa Nour tenta cruzar a Europa. A mecânica é deliberada: só é possível se comunicar com Nour por mensagens de texto, você não sabe realmente o que está acontecendo e não pode intervir além das palavras. Dana supervisionou o roteiro e Soullier participou como consultora editorial, então o jogo não é pura ficção nem um documentário: é algo entre as duas coisas.

Jogar significa não poder fazer nada

O que Maurin projetou foi uma mecânica de impotência. Em uma apresentação na GDC, ele explicou que queria que o jogador sentisse exatamente o que sentem as famílias que ficam: receber informações fragmentadas, não poder verificá-las e tomar decisões sem conhecer suas consequências. Essa sensação não é uma falha de design, mas o núcleo do jogo e também um dos mecanismos mais eficazes para gerar empatia real em vez de uma compaixão superficial.

Um estudo publicado em 2025 na Behavioral Sciences analisou o efeito de jogar como um avatar refugiado sobre as atitudes dos participantes. Os resultados mostraram redução de preconceitos e aumento da empatia após 30 minutos de jogo, tudo isso ligado ao mecanismo de tomada de perspectiva: compreender a situação de outra pessoa a partir de dentro. Bury Me, My Love força esse processo, mas adiciona algo que os estudos de laboratório não têm: os fatos narrados realmente aconteceram.

Aí está a tensão mais interessante do jogo. Além de contar uma história de refugiados, ele traz personagens reais, sendo que um deles participou da criação do game e sabe que, agora, milhares de desconhecidos podem tomar decisões fictícias sobre a sua vida. Maurin reconheceu que, antes de se reunir com Dana, preparou argumentos para justificar o projeto, mas não foi necessário: ela respondeu que achava tudo bem e que gostava da ideia de virar um videogame.

Bury Me, My Love não teve um impacto comercial massivo, mas gerou algo mais difícil de medir: um debate sobre o que um videogame pode fazer que uma reportagem não consegue. A resposta parece ser que ele pode colocar o jogador dentro da espera, da incerteza e do silêncio entre mensagens. Isso, ao contrário de uma estatística sobre refugiados, é difícil de esquecer.

Este texto foi traduzido/adaptado do site 3D Juegos.


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