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Bilhões em jogo: O que o agro brasileiro realmente ganha (e perde) com o acordo Mercosul-UE

Após mais de duas décadas de negociações, o tratado avança na Europa e promete abrir mercados, mas também traz salvaguardas que preocupam produtores brasileiros

Crédito de imagem: Xataka Brasil
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João Paes

Redator
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João Paes

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Escreve sobre tecnologia, games e cultura pop há mais de 10 anos, tendo se interessado por tudo isso desde que abriu o primeiro computador (há muito mais de 10 anos). 

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O aval provisório dado pelos países da União Europeia ao acordo de livre comércio com o Mercosul marca um dos movimentos mais relevantes do comércio internacional para o Brasil nos últimos anos — especialmente para o agronegócio. Negociado desde o fim dos anos 1990, o tratado finalmente entra em sua reta final e, se ratificado pelos parlamentos nacionais, poderá redefinir o acesso de produtos brasileiros a um dos mercados mais ricos e exigentes do planeta. Mas, apesar do potencial bilionário, os ganhos não vêm sem riscos.

Hoje, a União Europeia já é o segundo maior destino das exportações do agro brasileiro, atrás apenas da China. Em um cenário em que o Brasil perdeu espaço nos Estados Unidos após o tarifaço imposto por Donald Trump em 2025 — e ainda convive com restrições recentes de China e México à carne —, fortalecer a relação com a UE virou uma questão estratégica. Não por acaso, o acordo ganhou fôlego justamente quando europeus também passaram a buscar alternativas comerciais, pressionados pelas tensões com os EUA e pela dependência excessiva da China em áreas sensíveis.

Do ponto de vista do agro, o coração do acordo está na eliminação das tarifas de importação de 77% dos produtos agropecuários que a UE compra do Mercosul. Na prática, isso abre espaço para ampliar vendas de itens como café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais, com redução gradual de tarifas ao longo de quatro a dez anos. É uma mudança relevante, sobretudo para produtos industrializados, que hoje enfrentam taxas que corroem a competitividade.

O café é um exemplo emblemático. Embora o grão verde já entre na Europa com tarifa zero, o café solúvel paga atualmente 9%, enquanto o torrado e moído arca com 7,5%. Com o acordo, essas tarifas serão zeradas em até quatro anos, o que tende a fortalecer a indústria brasileira de maior valor agregado. Mais do que exportar mais, o tratado pode atrair investimentos europeus para processamento e industrialização no Brasil, algo que o setor vê como um ganho estrutural.

Já a soja, carro-chefe das exportações brasileiras, praticamente não sente efeito. Grão e farelo já têm tarifa zero há anos, e o acordo mantém esse status. Ou seja, para o principal produto do agro nacional, o tratado não muda o jogo — nem para melhor, nem para pior.

Onde a discussão fica mais sensível é no setor de carnes. Brasil e União Europeia são gigantes globais, mas em posições opostas: enquanto o Brasil lidera as exportações de carne bovina e de frango com preços competitivos, países como França e Polônia têm produção forte voltada ao mercado interno. Daí a resistência histórica de pecuaristas europeus, que enxergam o Mercosul como ameaça direta.

O acordo tenta equilibrar essa tensão por meio de cotas. No caso da carne bovina, o Brasil hoje exporta cortes nobres pela chamada cota Hilton, com limite de 10 mil toneladas anuais e tarifa de 20%. Com o tratado, essa tarifa seria zerada. Além disso, os países do Mercosul passam a compartilhar uma nova cota de até 99 mil toneladas por ano, com tarifa inicial de 7,5%. É um avanço, mas ainda considerado modesto por representantes do setor brasileiro.

Na carne de frango, o desenho é semelhante. Atualmente, há cotas específicas com tarifa zero e tarifas altíssimas fora delas. Com o acordo, o Mercosul terá uma nova cota anual de 180 mil toneladas sem tarifa, que será ampliada gradualmente ao longo de seis anos. O ponto-chave, segundo a ABPA, é a previsibilidade: se as regras forem respeitadas, há espaço concreto para aumentar exportações, mesmo com limites.

Mas é justamente aí que surgem as maiores preocupações. Para destravar o acordo internamente, a União Europeia aprovou salvaguardas para proteger seu agro. Elas permitem suspender benefícios tarifários caso as importações causem “prejuízo” a produtores locais. O gatilho ficou mais sensível: aumento médio de 5% em três anos já pode motivar investigação, com prazos mais curtos para decisão. Para especialistas, isso reduz o tempo de defesa do Mercosul e aumenta o risco de uso político dessas ferramentas.

Há ainda a exigência de que países do Mercosul sigam normas de produção equivalentes às europeias, inclusive em relação a defensivos agrícolas e fertilizantes. Embora o discurso seja de sustentabilidade e segurança alimentar, o temor é de insegurança jurídica e de que regras ambientais e sanitárias virem barreiras comerciais disfarçadas.

O acordo UE-Mercosul representa uma oportunidade histórica para o agro brasileiro ampliar mercados, diversificar destinos e agregar valor, de forma geral. Ao mesmo tempo, exige atenção redobrada: o acesso existe, mas vem acompanhado de cotas, salvaguardas e regras que podem limitar ganhos se aplicadas de forma restritiva. Com bilhões em jogo, o desafio do Brasil será transformar o tratado em crescimento real — sem cair em armadilhas regulatórias que esvaziem o discurso do livre comércio.



Crédito de imagem: Xataka Brasil

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