Uma casa construída na década de 1980 no município de Feira Nova, no Agreste de Pernambuco, venceu em 2026 um dos prêmios mais relevantes da arquitetura internacional. O projeto “Casa de Mainha”, assinado pelo arquiteto pernambucano Zé Vágner, foi reconhecido pelo prêmio Building of the Year, promovido pela ArchDaily, na categoria Casas.
A residência simples, que pertence à Marinalva, mãe do arquiteto, passou por uma reforma em 2025 com foco em ventilação, iluminação natural e conforto ambiental. O diferencial não foi luxo ou orçamento milionário, mas a forma como soluções simples transformaram completamente o espaço.
Casa simples do interior nordestino encantou o mundo com seu charme
Casa de Marinalva, antes e depois da reforma. Créditos: Zé Vágner e Hélder Santana
Localizada em Feira Nova, uma pequena cidade com cerca de 20 mil habitantes a aproximadamente 80 km do Recife, a casa de Nalva foge completamente do padrão normalmente associado a premiações internacionais. Nada de concreto aparente sofisticado ou estruturas futuristas. A construção original foi erguida pela própria família, com participação do pai, da mãe e dos avós do arquiteto, que produziram desde os tijolos até o telhado da casa.
Com tanto memória e significado, a reforma foi pensada para preservar essa memória afetiva. Ao invés de demolir e apagar o passado, o projeto preservou parte das paredes originais de adobe e manteve elementos estruturais existentes, respeitando a identidade da construção. A principal transformação aconteceu na reorganização dos espaços, onde antigos cômodos pequenos e compartimentados deram lugar a ambientes integrados, mais amplos, iluminados e ventilados.
O projeto foi o único brasileiro finalista em sua categoria e venceu após votação popular combinada com avaliação de júri especializado, um formato diferente por envolver também o público na decisão. O simbolismo é gigante: uma casa simples do interior nordestino, construída com recursos locais e memória familiar, foi escolhida como referência mundial, mostrando que relevância arquitetônica não está no luxo, mas na transformação da vida de quem habita o espaço.
Um detalhe simples pode mudar tudo: ventilação, luz e conforto
Muita gente pode imaginar que, para vencer um prêmio internacional desse porte, é preciso apostar em materiais luxuosos, soluções mirabolantes ou uma arquitetura diferenciada. No caso da “Casa de Mainha”, porém, o que garantiu o reconhecimento foi justamente o oposto: decisões simples, funcionais e profundamente conectadas à realidade de quem vive ali.
O que levou o projeto ao destaque internacional foi algo aparentemente básico, que é fazer a casa funcionar melhor para sua moradora. A reforma nasceu da necessidade de melhorar a qualidade de vida de Nalva, a mãe do arquiteto, que enfrenta problemas respiratórios. A partir disso, o projeto priorizou ventilação cruzada, aumento do pé-direito em parte da estrutura e o uso estratégico de cobogós, elementos vazados que permitem circulação constante de ar e entrada de luz natural.
Os cobogós são elementos vazados, geralmente feitos de cerâmica ou concreto, que permitem a circulação constante do ar. Créditos: Hélder Santana
Uma das intervenções mais marcantes foi a linha de cobogós instalada na fachada voltada para o oeste. Além de melhorar a ventilação, as peças criam efeitos de luz e sombra no interior da casa ao longo da tarde. O custo foi baixo, mas o impacto desse pequeno detalhe fez toda a diferença no design e na vida de Nalva.
Outras soluções encontradas pelo arquiteto Zé incluem placas de concreto acima das janelas para permitir que permaneçam abertas mesmo durante a chuva, preservação de portas originais e uso de mão de obra local. A reforma envolveu profissionais da própria região, reforçando a ideia de que arquitetura de qualidade não depende necessariamente de grandes orçamentos, mas do entendimento do clima, do contexto e das necessidades reais dos moradores.
A seguir, o vídeo publicado nas redes sociais mostra o momento em que o arquiteto compartilha a conquista do prêmio e apresenta detalhes do projeto:
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