Enquanto grandes potências mundiais esgotam suas redes elétricas e buscam desesperadamente energia para acompanhar a corrida global pela inteligência artificial, a China decidiu que a resposta para essa crise não está na terra, mas nas profundezas do oceano. Em outubro de 2025, a China colocou em operação em Hainan, o primeiro centro de dados subaquático comercial do mundo, com servidores instalados a 35 metros de profundidade.
A estrutura faz parte de uma estratégia maior para sustentar a grande demanda por computação e energia impulsionada pela IA. Ao usar o oceano como sistema de resfriamento natural, o país quer reduzir drasticamente o consumo elétrico dessas instalações. Por isso, o projeto é retratado como sustentável: ao substituir sistemas tradicionais de climatização pela água do mar, reduz a demanda por eletricidade em larga escala e, consequentemente, as emissões de carbono associadas à geração dessa energia, diminuindo o impacto ambiental da operação desses complexos digitais. Mas a pergunta que começa a surgir é outra: o oceano aguenta?
Pressão energética da inteligência artificial acelera aposta chinesa em data centers subaquáticos
A China tem um histórico de apostar em grandes projetos quando o assunto é tecnologia e infraestrutura. De trens de alta velocidade a grandes investimentos em energia, o país transformou inovação em estratégia de Estado. Não é coincidência, portanto, que essa nova estrutura tenha surgido agora.
O avanço acelerado da inteligência artificial transformou os data centers em devoradores de energia. Isso porque, cada novo modelo, cada busca com resposta gerada por IA, exige um volume crescente de processamento e, consequentemente, de energia. Em várias partes do mundo, a expansão desses centros pressiona redes elétricas já sobrecarregadas.
A China decidiu contornar esse problema de uma forma inovadora. Ao invés de disputar megawatts em terra firme, levou os servidores para o oceano. A lógica é simples: a água do mar funciona como um sistema de resfriamento natural, constante, abundante e gratuito, substituindo os complexos e intensivos sistemas de refrigeração usados em data centers terrestres. Com isso, segundo dados das autoridades locais, a economia de energia pode variar entre 40% e 60% em comparação com instalações tradicionais.
A 35 metros de profundidade, cápsulas de 1.300 toneladas transformam o oceano em peça-chave da infraestrutura digital chinesa
Compartimento do data center submarino tem o formato cilíndrico com 3,6 metros de diâmetro e 1.300 toneladas de peso. Créidtos: China Media Group
A imagem ajuda a entender a dimensão do projeto. Cada módulo subaquático pesa nada mais nada menos que 1.300 toneladas e abriga 24 racks capazes de suportar até 500 servidores. Essas cápsulas metálicas são instaladas a 35 metros de profundidade no oceano, isoladas da pressão e da corrosão do ambiente marinho, conectadas por cabos submarinos que levam dados para a costa.
Os testes começaram em 2023 e atenderam inicialmente demandas locais, como serviços digitais ligados ao porto de livre comércio da região. Agora, a estrutura avança para aplicações em nuvem e inteligência artificial, com planos ambiciosos de expansão. Dentro do atual plano, a China projeta a construção de até 100 cabines submersas, integradas a um parque industrial.
Mas a aposta também traz algumas dúvidas em relação à sustentabilidade do projeto. Como o calor dissipado continuamente no oceano pode afetar ecossistemas marinhos, especialmente em períodos de ondas de calor? Quais são os riscos de manutenção em um ambiente de alta pressão e salinidade? A própria Microsoft chegou a testar centros de dados submersos em 2018, mas não levou a iniciativa adiante comercialmente.
Ao transformar o fundo do mar com esses grandes data centers, a China não está apenas buscando eficiência energética, mas pode estar contornando limites físicos e ambientais para sustentar sua ambição na inteligência artificial. Se o avanço da inteligência artificial depende de energia abundante e capacidade massiva de processamento, a China descobriu que o oceano pode ser a chave nessa empreitada, mesmo com todos os riscos e implicações que isso carrega para o equilíbrio tecnológico e ambiental.
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