Eles chamam de 'Godoksa': o triste fenômeno de mortes solitárias que virou uma epidemia na Coreia do Sul

Crise demográfica, pobreza entre idosos e pressão por sucesso pessoal alimentam o fenômeno que já causa mais de 3,6 mil mortes silenciosas por ano no país

Foto: Ming Han Low/Unsplash
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Natália P. Martins

Redatora
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Natália P. Martins

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Na Coreia do Sul, a palavra “godoksa” descreve uma tragédia que ocorre longe da mídia e das cidades tecnológicas: mortes solitárias de pessoas que passam dias, semanas ou até anos sem serem notadas. Os corpos geralmente são encontrados em apartamentos fechados apenas quando o odor começa a se espalhar ou as contas deixam de ser pagas.

Segundo o Ministério da Saúde e Bem-Estar da Coreia do Sul, 3.661 pessoas morreram sozinhas em 2023, um aumento considerável em relação aos anos anteriores. Os homens respondem por 84% dos casos, e a maioria das vítimas tem entre 50 e 60 anos.

A pobreza e o envelhecimento por trás da crise

O avanço econômico que transformou a Coreia do Sul em potência tecnológica. Com isso, grandes expectativas pelo sucesso pessoal e baixa tolerância ao fracasso, moldaram um sistema onde indivíduos trabalhadores de meia-idade são facilmente descartados.

O país enfrenta agora uma crise demográfica sem precedentes: mais de 20% da população tem mais de 65 anos e a taxa de fertilidade é de apenas 0,72 filho por mulher — a mais baixa do mundo, segundo o Banco Mundial.

Além disso, há outro fator alarmante: quase 40% das pessoas com mais de 65 anos vivem abaixo da linha da pobreza, de acordo com a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), dependendo de benefícios mínimos ou trabalhos informais. Homens de meia-idade que perderam o emprego, se divorciaram ou foram excluídos de suas famílias acabam isolados em pequenos apartamentos, sem qualquer rede de apoio.

A Universidade de Busan estima que 1,5 milhão de sul-coreanos estejam em risco elevado de morrer em solidão — um retrato sombrio de uma sociedade onde o valor do indivíduo é medido pelo desempenho econômico.

Sociedade hipercompetitiva como causa do isolamento 

A Coreia do Sul é conhecida por seu alto desempenho acadêmico e por ser uma das economias mais digitalizadas do planeta. Apesar disso, a realidade é o crescimento da pressão extrema e o colapso das redes de apoio tradicionais.

"Especialistas alertam que uma combinação de mudanças demográficas e sociais — incluindo o rápido aumento de famílias unipessoais, o enfraquecimento das redes comunitárias e a expansão do trabalho em plataformas digitais — está agravando o risco de isolamento", explica Woo Kyung-mi, chefe de assistência social comunitária do Ministério da Saúde.

Com jornadas de trabalho exaustivas, os vínculos familiares enfraqueceram. A tradição de filhos cuidando dos pais idosos se desfaz diante da urbanização acelerada e do alto custo de vida. 

Para muitos homens, a vergonha de depender de ajuda pública leva ao isolamento deliberado. "Ao contrário das mulheres, que tendem a socializar em níveis mais profundos, os homens muitas vezes têm dificuldade em compartilhar angústias devido ao peso social ou ao orgulho", acrescenta Woo.

Planejamento governamental contra a solidão

Em 2024, Seul anunciou um plano nacional com investimentos equivalentes a R$ 1,9 bilhão para combater a solidão. O pacote inclui:

  • Redes de monitoramento: Assistentes treinados para identificar pessoas em risco;
  • Tecnologia de cuidado: Sensores residenciais para detectar falta de movimento em casas de idosos;
  • Vizinhança solidária: Incentivo ao contato comunitário em áreas urbanas;
  • Apoio psicológico: Foco em jovens desempregados e idosos isolados.

O drama também invisível no Japão

A Coreia do Sul não está sozinha. O Japão enfrenta há décadas o mesmo fenômeno, conhecido como kodokushi. Estima-se que cerca de 40.000 pessoas morram sozinhas todos os anos no país. O problema é tão grave que empresas especializadas já utilizam inteligência artificial e sensores para monitorar residências. Em ambas as nações, o colapso das estruturas familiares expõe o alto custo social da cultura da performance extrema.

Foto de capa: Ming Han Low/Unsplash

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