O ambicioso plano da gigante chinesa Shein de transformar o Brasil em um centro de produção para toda a América Latina perdeu força. A empresa havia prometido investir US$ 150 milhões e gerar 100 mil empregos até 2026, mas esbarrou em custos elevados, prazos incompatíveis com a indústria local e desafios logísticos.
Promessa bilionária emperra
Lançado em 2023, o projeto previa parcerias com 2 mil fábricas brasileiras. No entanto, segundo levantamento da Reuters, apenas 336 unidades chegaram a firmar acordos até o fim do primeiro ano. Hoje, o número de fábricas é bem menor do que o planejado.
A Shein reconheceu que o plano “não ocorreu conforme o esperado”. Em comunicado, a empresa afirmou que a produção no Brasil “precisou de tempo para amadurecer” e que as diferenças na infraestrutura industrial tornaram o avanço “mais lento e desafiador”.
Indústria local diz “basta”
Fabricantes brasileiros afirmam que as exigências da varejista tornaram a parceria inviável. A empresa pedia reduções de até 30% nos preços e prazos de entrega curtos demais para a estrutura nacional.
"Trabalhar no Brasil é diferente de trabalhar na China. O Brasil tem marcos regulatórios e normas muito diferentes", disse Fernando Pimentel, diretor da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). "Lamento que não tenha dado certo."
Empresários do Nordeste relataram à Reuters que, para atender às metas da Shein, seria necessário trocar tecidos e reduzir margens de lucro a níveis insustentáveis. Muitos romperam os contratos poucos meses após o início das produções.
Modelo chinês encontrou dificuldades estruturais
A Shein tentou replicar no Brasil o modelo chinês de produção rápida e barata, sustentado por uma rede de 7 mil fábricas integradas na província de Guangdong, próximas a fornecedores de aviamentos e tecidos de baixo custo.
No Brasil, a dispersão geográfica das fábricas, os impostos e as leis trabalhistas rígidas inviabilizaram o mesmo padrão de eficiência.
Mercado chinês segue em expansão no Brasil
Mesmo com o recuo na produção nacional, o Brasil continua sendo o segundo maior mercado da Shein, atrás apenas dos Estados Unidos. O marketplace local mantém mais de 45 mil vendedores brasileiros ativos.
Ainda assim, o episódio expõe as limitações do modelo de ultrabaixo custo fora da China e a dificuldade de adaptação às condições industriais e regulatórias de outros países.
Foto de capa: Pilar Olivares/REUTERS
Ver 0 Comentários