Olha quem apareceu: a Nokia está viva e crescendo 140% ao ano 

O motivo é muito simples: os centros de dados

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Durante anos, a Nokia pareceu ficar presa em nossa memória como uma empresa do passado: celulares indestrutíveis, o “Snake”, ringtones famosos e uma queda que acabou se transformando em um alerta para toda a indústria de tecnologia. Mas essa imagem tem algo de injusta. A Nokia não desapareceu quando perdeu espaço no mercado de smartphones. A empresa continuou existindo, longe da vitrine do consumidor, em um negócio menos visível e muito mais difícil de explicar: redes, infraestrutura para operadoras e a tecnologia que permite que as comunicações modernas funcionem. E agora, de repente, a IA a colocou novamente no mapa.

Segundo a Bloomberg, as ações da Nokia subiram mais de 140% em 2026, um movimento que a transformou na quarta empresa com melhor desempenho do índice Stoxx Europe 600 e levou seus papéis a níveis não vistos desde 2008. 

O segredo está no fato de que os investidores começaram a enxergar a empresa de outra forma: menos como uma fornecedora tradicional de equipamentos de telecomunicações e mais como uma peça da infraestrutura capaz de sustentar o avanço da IA. Não por causa dos telefones, mas por seus equipamentos ópticos para centros de dados.

Um esclarecimento importante: a empresa responsável pela alta é a Nokia Oyj, não a HMD Global. A diferença importa porque a HMD é a empresa que comercializa celulares com a marca Nokia sob licença, enquanto a Nokia Oyj é a companhia finlandesa listada em bolsa. O ponto de separação veio em 2014, com a venda da divisão de celulares para a Microsoft. A partir daí, o nome Nokia continuou circulando em dois planos distintos: como uma marca reconhecível para muitos consumidores e como uma empresa industrial dentro do mercado global de telecomunicações.

Uma avaliação que se complica

A euforia na bolsa deixou a Nokia em uma posição delicada: quanto mais uma ação sobe, mais difícil se torna justificar o que vem depois. A informação do veículo econômico estadunidense aponta que seu P/L projetado para os próximos 12 meses — a relação entre o preço da ação e os lucros esperados para o próximo ano — está em cerca de 36 vezes, mais do que o dobro das aproximadamente 17 vezes registradas no começo do ano. O dado que esfria o entusiasmo é outro: a parte ligada à IA e à nuvem, responsável por alimentar boa parte da nova narrativa, representou apenas 8% das vendas do grupo no primeiro trimestre.

O atrativo da Nokia está em uma camada que costuma ficar abaixo da narrativa mais visível da IA. Enquanto boa parte da conversa gira em torno de chips, modelos e aplicações, os centros de dados também precisam de redes ópticas para movimentar informações rapidamente entre sistemas de computação. A compra da Infinera, uma empresa especializada em redes ópticas, deu mais força à Nokia nesse segmento e agora parece ter sido uma operação especialmente oportuna. A isso se somam três sinais destacados pela Bloomberg: as vendas ligadas à IA cresceram 49% no primeiro trimestre, a empresa elevou em abril suas previsões para segmentos expostos a clientes de nuvem e a NVIDIA realizou um investimento de 1 bilhão de dólares.

O entusiasmo com as redes ópticas não apaga o tamanho do negócio que a Nokia já tinha antes de os investidores começarem a enxergá-la sob a ótica da IA. A divisão de redes móveis ainda responde por mais da metade das vendas totais e, de acordo com as informações citadas pelo veículo econômico estadunidense, opera com margens menores do que a parte mais ligada à nuvem e à inteligência artificial. Esse peso condiciona qualquer leitura otimista. As operadoras reduziram gastos nos últimos anos e a Nokia também sofreu perdas de contratos importantes nos EUA, de modo que a empresa não parte de uma folha em branco.

Durante anos, a grande pergunta em torno da Nokia era se alguém voltaria a enxergá-la como algo além de uma lembrança de outra era tecnológica. Essa parte, ao menos na bolsa, já aconteceu. O problema é que os investidores não perdoam segundas chances quando elas chegam caras demais: depois de uma alta de mais de 140%, a empresa já não precisa apenas demonstrar que tem exposição à IA, mas que essa exposição pode se transformar em pedidos, receitas e margens. A história voltou a ser atraente. Agora, falta a parte mais difícil: que os números estejam à altura.

Imagens | Nokia

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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