Guerra no Oriente Médio chegou a acordo inesperado: EUA não estão discutindo os mísseis, bombas ou urânio do Irã

Crise demonstrou que Irã mantém capacidade de exercer pressão muito maior do que muitos esperavam

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Durante a chamada "guerra dos petroleiros", um único míssil iraniano contra um navio no Golfo Pérsico foi suficiente para fazer os preços do petróleo dispararem e forçar os Estados Unidos a escoltar embarcações civis através de campos minados e ataques marítimos. Décadas depois, o Estreito de Ormuz ainda possui a mesma capacidade de desestabilizar toda a economia global em questão de horas.

Programa nuclear do Irã

O grande paradoxo do potencial acordo entre os Estados Unidos e o Irã é que a guerra começou oficialmente para interromper o programa nuclear iraniano e pode terminar, pelo menos por enquanto, sem resolver praticamente nenhuma das questões que justificaram o conflito. Washington e Teerã estão perto de chegar a um entendimento temporário focado principalmente na reabertura do Estreito de Ormuz, na estabilização do mercado de energia e na prevenção de uma escalada regional, enquanto questões como mísseis balísticos iranianos, enriquecimento de urânio e o futuro do arsenal nuclear são adiadas para negociações posteriores.

A situação é particularmente surpreendente porque Trump e Netanyahu apresentaram a ofensiva contra o Irã como uma oportunidade histórica para desmantelar definitivamente as capacidades militares estratégicas de Teerã. Meses depois, o Irã ainda possui toneladas de material nuclear enriquecido, mantém grande parte de sua capacidade de mísseis intacta e conseguiu demonstrar o quanto pode ameaçar o fornecimento global de energia.

Ormuz

O cerne das negociações

O ponto central do acordo não gira em torno de ogivas nucleares ou inspeções internacionais, mas sim de uma questão muito mais imediata: a reabertura da passagem marítima por onde flui aproximadamente um quarto do petróleo mundial. O governo Trump finalmente aceitou que a prioridade absoluta era desbloquear o Estreito de Ormuz antes que o impacto econômico começasse a sair do controle, tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos.

A possibilidade de uma guerra prolongada, com a disparada dos preços do petróleo e da gasolina atingindo níveis politicamente insustentáveis, começou a preocupar seriamente a Casa Branca, especialmente com a proximidade das eleições de meio de mandato. A versão negociada do acordo contempla um cessar-fogo temporário de sessenta dias, durante o qual o Irã removeria as minas do estreito, permitiria o tráfego marítimo sem pedágio e poderia retomar a venda de petróleo com certas flexibilizações das sanções americanas. Em outras palavras, Washington acabou priorizando o fluxo global de energia e adiando justamente o que supostamente tornava a guerra inevitável.

Concessão surpreendente

Até poucos dias atrás, o governo americano insistia que não haveria acordo que não abordasse o programa nuclear iraniano desde o início. No entanto, a realidade estratégica acabou prevalecendo sobre a retórica política. Autoridades americanas agora reconhecem que negociar o gigantesco programa nuclear iraniano em questão de dias era simplesmente impossível e que mesmo o acordo nuclear de Obama exigiu quase dois anos de negociações e centenas de páginas de documentação técnica.

O resultado é uma mudança extraordinária de tom por parte de Trump, que passou de exigir a "rendição incondicional" do Irã a falar de uma relação "mais profissional e produtiva" com Teerã. O problema para Washington é que essa mudança alimenta críticas tanto de republicanos linha-dura quanto de setores israelenses que acreditam que os Estados Unidos acabaram aliviando a pressão justamente quando o Irã estava mais fragilizado economicamente.

Irã mantém posição

Embora Washington afirme que o Irã concordou verbalmente em discutir limites ao enriquecimento de urânio e possíveis entregas de material nuclear altamente enriquecido, a realidade é que ainda não há um compromisso firme ou mecanismos claros para verificar essas concessões. Teerã também se recusa a discutir seriamente restrições a seus mísseis balísticos, uma questão crucial para Israel e seus aliados árabes do Golfo.

Na verdade, grande parte do poder de negociação do Irã ainda se baseia precisamente nos elementos que os Estados Unidos queriam eliminar: sua capacidade de fechar o Estreito de Ormuz e seu estoque de urânio enriquecido quase suficiente para armas nucleares. O Irã parece ter compreendido que, quanto mais conseguir vincular a estabilidade energética global à sua própria sobrevivência econômica, mais difícil será para Washington manter uma estratégia puramente militar ou maximalista.

O medo de Israel

Por trás do acordo, também emerge uma crescente tensão entre os interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel. Netanyahu teria expressado sua preocupação diretamente a Trump sobre vários pontos da minuta, especialmente porque o entendimento incluiria uma redução mais ampla das tensões regionais, que afetaria inclusive o conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano.

A Casa Branca tenta tranquilizar Israel afirmando que qualquer rearmamento do Hezbollah justificaria novas ações militares israelenses, mas a mensagem implícita é clara: Washington quer estabilizar a região e reduzir o risco de uma guerra total, mesmo que isso signifique aceitar soluções temporárias e imperfeitas. Para muitos setores israelenses e republicanos, o acordo implica aceitar que os objetivos iniciais da guerra provavelmente eram inatingíveis.

Negociação “energética”

O que está acontecendo no Oriente Médio também reflete a extensão em que as guerras modernas podem acabar redefinindo completamente suas prioridades originais. A campanha militar começou com a promessa de destruir o programa nuclear iraniano e eliminar a ameaça estratégica de Teerã. No entanto, após semanas de tensão global, fogo cruzado e um risco real de escalada regional, as negociações se voltaram para algo muito mais básico e urgente: evitar o colapso do comércio global de energia.

O detalhe mais revelador é que ainda não há um acordo final sobre urânio enriquecido, sanções ou mísseis iranianos, mas ambos os lados parecem dispostos a avançar se o fluxo de petróleo for normalizado. Em última análise, a crise demonstrou que o Irã mantém uma capacidade de exercer pressão muito maior do que muitos esperavam e que, para os Estados Unidos, o custo econômico e político de uma guerra prolongada se mostrou mais perigoso do que aceitar uma trégua repleta de incertezas.

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