A Comissão Europeia está tomando medidas. A expectativa é que apresente seu "Pacote de Soberania Tecnológica" em 27 de maio. Essa diretiva incluirá uma série de medidas destinadas a impulsionar a autonomia estratégica da UE em áreas sensíveis, o que implica algo inédito: reduzir ao máximo sua dependência de hiperescaladores americanos para o armazenamento de dados críticos.
O temor de um "botão de desligamento"
Essas medidas estão sendo consideradas devido à crescente instabilidade política e a casos recentes que demonstraram o poder dos EUA sobre a infraestrutura tecnológica europeia. Em maio, a Microsoft "apagou" o e-mail de Karim Khan, um procurador que havia sido citado diretamente em uma ordem executiva de Donald Trump.
A Microsoft negou o ocorrido, mas o estrago já estava feito, e esses incidentes aumentaram os temores de que Trump possa usar uma espécie de "botão de desligamento" contra as instituições europeias que dependem da infraestrutura de hardware e software fornecida por empresas como Microsoft, Google e Amazon.
Espionagem legal
A Lei CLOUD (Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act) é uma lei americana de 2018 que permite que autoridades policiais obriguem empresas de tecnologia sediadas nos EUA (como Google, Microsoft ou Amazon) a entregar dados, independentemente de onde estejam armazenados, dentro ou fora dos EUA.
Essa lei atualiza a Lei de Comunicações Armazenadas (Stored Communications Act) para priorizar o controle de dados em detrimento da localização. Em outras palavras, se você usa os serviços de hiperescaladores americanos, os EUA podem, em última instância, acessar seus dados. E, como você aceitou os termos de serviço deles, está concordando com a vigilância legal que eles "precisam" exercer.
Se vocês quiserem meus dados críticos, terão que protegê-los
As novas regulamentações exigem que os provedores de serviços que desejam trabalhar com dados críticos europeus demonstrem que não estão sujeitos a solicitações de governos fora da União Europeia. Isso exclui automaticamente a Microsoft, o Google e a Amazon, porque as três estão sujeitas à Lei CLOUD.
A Europa, portanto, busca provedores que garantam que os dados críticos não serão mantidos por empresas que, posteriormente, teriam que entregá-los a potências estrangeiras.
A Europa depende da nuvem americana
A realidade é que hoje, a Amazon (AWS), a Microsoft (Azure) e o Google (Google Cloud) controlam mais de 70% do mercado de computação em nuvem na Europa.
Perder esses contratos institucionais representaria um golpe financeiro significativo, mas também enviaria um sinal forte às empresas privadas europeias: se Bruxelas não confia nos EUA com seus segredos, por que as corporações europeias deveriam? O efeito dominó poderia ser enorme.
A Europa possui sua própria infraestrutura de nuvem
Essa diretiva daria uma oportunidade significativa a iniciativas que pareciam estagnadas, como a GAIA-X, mas também existem empresas com infraestrutura própria, como a OVH (França) e a T-Systems (Alemanha). Há desafios técnicos significativos nessa área, porque os hiperescaladores americanos vêm aprimorando suas ofertas nas últimas duas décadas.
No entanto, Bruxelas parece disposta a aceitar um serviço ligeiramente menos eficiente ou abrangente em troca de maior autonomia. As opções certamente existem, mas o desafio é enorme.
A migração será cara
Tomar a decisão é uma coisa; concluir a migração, que exigirá a transferência de décadas de dados e sistemas para uma infraestrutura diferente, é outra bem diferente. Algumas análises sugerem que os centros de dados atuais teriam de ser expandidos para atender à demanda, o que custaria entre 14 e 24 bilhões de euros (entre R$ 80,5 bilhões e R$ 138 bilhões).
Consultorias como a Forrester não estão convencidas de que a UE possa alcançar a soberania na nuvem, e outros especialistas também deixam claro que a Europa não abandonará os hiperescaladores.
Rastreabilidade
Além da mudança de provedores, a diretiva também visa impor requisitos rigorosos de transparência. Os sistemas de IA que têm acesso a esses dados devem ser auditáveis pelo recém-criado Escritório de IA da UE. A Comissão quer saber quem tem acesso ao código, quem mantém os servidores e quem tem a capacidade técnica para gerenciar e até mesmo interceptar essas transferências de dados.
Dados altamente sensíveis
Em declarações à CNBC, representantes da UE explicaram que há debates em curso exigindo que dados financeiros, judiciais e de saúde utilizados nos níveis governamental e do setor público sejam armazenados em uma infraestrutura de nuvem soberana. Isso também se aplica a dados militares, é claro, e já existem iniciativas nesse sentido.
Internet fragmentada
A medida confirma que o mundo parece estar caminhando para um futuro com uma internet fragmentada e fronteiras geopolíticas significativas. Enquanto os EUA tentam proteger sua tecnologia da China, a Europa e o resto do mundo tentam evitar, ou pelo menos mitigar, sua dependência excessiva de soluções tecnológicas americanas.
Imagem de capa | İsmail Enes Ayhan e François Genon
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