Durante anos, o Solar Impulse representou a esperança da aviação de se tornar independente do querosene; até hoje

  • O Solar Impulse 2 caiu durante um voo de teste autônomo;

  • Foi a primeira aeronave de asa fixa movida a energia solar a circunavegar o globo;

  • A Skydweller o havia convertido em uma plataforma não tripulada

Imagens | Solar Impulse
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Fabrício Mainenti

Redator

Houve um tempo em que o Solar Impulse 2 parecia ter surgido de uma pergunta simples: até onde um avião pode ir se eliminarmos o combustível convencional? A resposta não foi um produto comercial, mas uma aeronave experimental movida a energia solar e baterias que acabou circunavegando o globo. É por isso que esta notícia tem um peso especial.

Essa aeronave, que simbolizava uma maneira diferente de imaginar a aviação, caiu no Golfo do México durante um voo de teste autônomo.

O golpe veio em 4 de maio. De acordo com a Aviation Safety Network, o Solar Impulse 2 estava realizando um voo de teste autônomo quando perdeu potência e caiu na água. O aspecto menos amargo da notícia é que não houve feridos ou mortos, o que é importante porque a aeronave já estava voando sem tripulação nesta nova fase.

O aspecto mais simbólico é algo completamente diferente: a aeronave que durante anos transformou uma promessa tecnológica em algo tangível foi reduzida aos destroços de um acidente.

Por trás do projeto estava Bertrand Piccard, uma figura imersa em uma tradição familiar de exploradores: seu avô, Auguste Piccard, foi um pioneiro na exploração das profundezas do oceano, e seu pai, Jacques Piccard, chegou à Fossa das Marianas.

Em 2003, ele começou a idealizar uma aeronave movida a energia solar capaz de circunavegar o globo para chamar a atenção para a “energia sustentável”. Primeiro veio o Solar Impulse 1, com seu voo inaugural em 2009, seguido pelo salto definitivo.

O avião que converteu a energia solar em energia para voar

O que impressiona é que essa ambição não se baseava em uma máquina gigantesca no sentido tradicional. O Solar Impulse 2 tinha uma enorme envergadura, cerca de 71 metros, maior que a de um Boeing 747, mas pesava cerca de 2,3 toneladas graças à sua estrutura de fibra de carbono.

A energia vinha de 17.248 células fotovoltaicas distribuídas por toda a aeronave, com uma potência máxima de 66 kW para alimentar quatro motores elétricos e carregar quatro baterias de íon-lítio.

O momento que transformou o Solar Impulse 2 em algo mais do que uma mera curiosidade tecnológica aconteceu em 2016. Naquele ano, o Solar Impulse 2 completou a primeira circunavegação do globo por uma aeronave de asa fixa movida inteiramente a energia solar, uma jornada que durou mais de 15 meses

Bertrand Piccard e André Borschberg, cofundador da fundação, revezaram-se nos controles durante a viagem. Certamente não foi uma demonstração de velocidade: a aeronave viajou entre 50 e 100 quilômetros por hora, reduzindo a velocidade durante os voos noturnos.

Imagem | Solar Impulse

Após esse feito, a história tomou um rumo diferente. Em 2019, a Fundação Solar Impulse anunciou a venda da aeronave para a Skydweller Aero por um valor não divulgado. A empresa hispano-americana não via o projeto da mesma perspectiva que seus criadores: seu interesse residia em explorar o potencial da aeronave como plataforma de vigilância e comunicação, um propósito muito diferente da mensagem original de conscientização energética.

Imagem | Solar Impulse

Com a Skydweller, a transformação técnica da aeronave também teve início. Após incorporar diversas modificações, o avião completou seu primeiro voo autônomo na Espanha em 2023 e, no ano seguinte, no Aeroporto Internacional Stennis, perto de Bay St. Louis, Mississippi, realizou sua primeira operação totalmente não tripulada.

O objetivo declarado da empresa era desenvolver uma frota de aeronaves movidas a energia solar capazes de realizar voos sem escalas em determinadas latitudes, entre Miami e Rio de Janeiro. A ambição era clara: operações quase contínuas para contratos militares e comerciais, a um custo muito menor do que as opções baseadas em satélites. Uma promessa enorme que acabou submersa.

Imágenes | Solar Impulse (1234)


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