950 milhões de euros, duas fábricas e uma empresa chinesa: Espanha quer transformar Valladolid no polo de baterias da Europa

O Ministério da Indústria autorizou recursos públicos para a construção da fábrica de cátodos da Gotion

Fábrica na Espanha
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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O Ministério da Indústria e do Turismo da Espanha aprovou, há alguns dias, os subsídios milionários que permitirão à empresa chinesa Gotion High-Tech construir, em Valladolid, sua primeira "gigafábrica" de baterias fora da Ásia. A decisão da Sociedade Estatal de Promoção Industrial e Desenvolvimento Empresarial (Sepides) confirmou um subsídio de 138 milhões de euros para um projeto que vai mobilizar cerca de 950 milhões de euros e pretende transformar a cidade em um centro de referência para a indústria de veículos elétricos.

Os subsídios fazem parte da quinta edição do PERTE do Veículo Elétrico e Conectado (PERTE VEC V) e consolidam uma concessão preliminar anunciada em maio deste ano. A proposta é distribuir os recursos entre duas unidades distintas: uma dedicada à reciclagem de baterias e à recuperação de materiais críticos (conhecidos como "black mass", ou massa negra), que receberá 82,3 milhões de euros; e outra voltada à fabricação de cátodos, que ficará com 55,9 milhões de euros. A informação foi confirmada pelo próprio ministro da Indústria, Jordi Hereu.

O cátodo é um dos elementos que mais agregam valor às baterias. Segundo o próprio Ministério dos Transportes, ele representa cerca de 60% do valor total e, até agora, nenhuma fábrica da União Europeia produz esse componente. A instalação dessa unidade em Valladolid significa que a Europa poderá reduzir sua dependência da Ásia para um dos componentes mais caros e estratégicos dos veículos elétricos (embora apenas parcialmente, já que a Gotion continua sendo uma fabricante chinesa).

Segundo o ministro dos Transportes, Óscar Puente, durante a apresentação do projeto, a ideia não era simplesmente "fabricar baterias, algo que já é feito em muitos lugares", mas sim "abrir um novo caminho".

O Ministério, por meio da Sepides, estima que o orçamento das duas fábricas seja de 411,5 milhões e 539,1 milhões de euros, respectivamente. Os 138 milhões de euros em recursos públicos representam cerca de 15% do investimento total previsto para essa primeira fase.

Quem está por trás do projeto

A Gotion High-Tech é uma gigante chinesa que atua em toda a cadeia produtiva das baterias, desde a extração e transformação de matérias-primas até a reciclagem final. A empresa já mantém relações comerciais com a Volkswagen e possui fábricas próprias na Alemanha e na Eslováquia. A unidade de Valladolid receberá matéria-prima proveniente do Marrocos e, segundo a empresa, também servirá como plataforma de exportação para a América Latina.

O projeto foi retomado após a empresa eslovaca InoBat, que anteriormente também havia obtido recursos públicos para se instalar em Valladolid, desistir do plano sem apresentar as garantias financeiras exigidas.

Segundo dados divulgados pela própria Gotion, a construção das duas fábricas deverá gerar cerca de 2.500 postos de trabalho. Após o início das operações, as unidades deverão empregar aproximadamente 1.000 trabalhadores de forma direta.

O projeto prevê o início da construção da primeira fase, correspondente à fábrica de reciclagem, ao longo de 2027. As instalações ocuparão cerca de 700.000 metros quadrados de área industrial. No entanto, o projeto da Gotion está condicionado à construção de uma usina solar de grande porte para garantir o fornecimento energético das fábricas, o que exigirá a disponibilidade de até mil hectares adicionais de terreno.

Além disso, para viabilizar a construção da fábrica, será necessário alterar o Plano Geral de Ordenamento Urbano de Valladolid. Segundo informações do jornal El Economista, a expectativa é de que a aprovação provisória dessa alteração ocorra em 27 de julho, embora a decisão final caiba ao governo regional de Castela e Leão.

Próximos passos

A Prefeitura de Valladolid, administrada por uma coalizão entre o Partido Popular (PP) e o Vox, já assinou uma carta de intenções para ceder os terrenos necessários ao projeto. A área inicial será de 70 hectares, com possibilidade de ampliação para até 120 hectares caso o empreendimento seja expandido, segundo informações do El Confidencial. O atual prefeito, Jesús Julio Carnero, afirmou manter "contato permanente" com os executivos chineses e comprometeu-se a agilizar os trâmites necessários.

Óscar Puente, prefeito de Valladolid entre 2015 e 2023 e atualmente ministro dos Transportes, foi o principal responsável por impulsionar a iniciativa. Em 2023, ele viajou à Eslováquia para negociar com a InoBat a primeira tentativa de instalar uma fábrica de baterias na cidade. Em diversas ocasiões, Puente destacou a posição estratégica de Valladolid, que conta com aeroporto próprio, ligação ferroviária de alta velocidade a apenas uma hora de Madri, proximidade com Portugal e um polo industrial consolidado em conjunto com Palência e Burgos. O ministro classificou a iniciativa como o maior investimento industrial realizado na cidade desde a chegada da fábrica da Renault, em 1953.

A decisão do Ministério da Indústria elimina um dos principais entraves administrativos ao projeto, mas ainda restam etapas importantes, entre elas a apresentação das garantias financeiras, a aprovação definitiva das alterações urbanísticas pelo governo regional de Castela e Leão e o início das obras, previsto para 2027. Além disso, a Gotion considera essa primeira fase apenas o começo de um plano muito mais ambicioso, que poderá alcançar um investimento total de 5 bilhões de euros e incluir até oito fábricas em Valladolid, segundo informações da própria empresa.

Imagem: Ministério dos Transportes e DAZE

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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