Uma pequena cidade do interior de Minas criou um idioma próprio para despistar patrões e até hoje preserva palavras que parecem outra língua

Criada por trabalhadores das minas de ferro para despistar os patrões, a Guinlagem do Camaco sobrevive há mais de um século e ainda é falada em Itabira

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Natália P. Martins

Redatora

Quem visita Itabira, no interior de Minas Gerais, dificilmente imagina que, além de ser a terra de Carlos Drummond de Andrade, a cidade preserva uma das manifestações linguísticas mais curiosas do Brasil. Conhecida como Guinlagem do Camaco, essa forma de falar nasceu há cerca de um século entre trabalhadores das minas de ferro e continua sendo transmitida entre gerações.

À primeira vista, parece um idioma completamente diferente, mas, na verdade, é um código baseado na inversão dos sons das sílabas das palavras, capaz de tornar qualquer conversa praticamente incompreensível para quem não conhece as regras. 

O dialeto começou como uma estratégia de comunicação secreta, mas acabou se tornando parte da identidade cultural da cidade e, em 2023, foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Itabira

Linguagem foi criada para que os patrões não entendessem

A origem da Guinlagem do Camaco remonta ao início do século XX, quando as minas de ferro de Itabira reuniam centenas de trabalhadores brasileiros sob o comando de engenheiros e administradores estrangeiros, principalmente ingleses.

Segundo pesquisadores, os operários passaram a inverter os sons das palavras para conversar entre si sem que os chefes compreendessem o conteúdo das conversas. O código também servia para organizar greves, discutir condições de trabalho e fazer comentários longe da vigilância dos patrões. Com o tempo, deixou de ser apenas uma ferramenta dos mineiros e passou a circular pelas ruas da cidade.  

Como funciona a Guinlagem do Camaco

A lógica da linguagem parece simples, mas exige prática para ser compreendida. Em vez de inverter apenas a ordem das letras, os falantes reorganizam os sons das sílabas das palavras.

Para efeito de comparação confira o poema “E agora, José?”, de Carlos Drummond de Andrade, traduzido na Guinlagem do Camaco:  

“E aroga, Sojé? A tesfa abacou,
A ôlis agapou,
O vopo musseu,
A toine fresiou.
E aroga, Sojé?”

O próprio nome do dialeto também segue essa regra: "Guinlagem do Camaco" corresponde a "Linguagem do Macaco".

Nem todas as palavras, porém, obedecem exatamente ao mesmo padrão. Algumas expressões sofreram adaptações ao longo das décadas e hoje fazem parte do vocabulário próprio dos moradores. É o caso de "oliz", que significa "luz", "ônis", que quer dizer "não" e de "ualquiquelque", usada para dizer "qualquer".  

Código secreto saiu das minas e virou tradição familiar

Com o passar do tempo, a linguagem deixou de ser utilizada apenas nos canteiros de mineração. Pais passaram a conversar em Camaco para que os filhos pequenos não entendessem determinados assuntos. Mais tarde, as próprias crianças aprenderam o código e passaram a utilizá-lo entre amigos.

Durante as décadas de 1960 e 1970, tornou-se comum que jovens de Itabira conversassem em Camaco na presença de visitantes apenas para brincar com quem vinha de fora. A prática ajudou a preservar a linguagem mesmo com as mudanças na mineração e na economia local.  

Patrimônio cultural de Itabira resiste ao tempo

Embora o número de falantes tenha diminuído nas últimas décadas, a Guinlagem do Camaco continua presente em Itabira. Pesquisadores, músicos, professores e cineastas da cidade desenvolvem iniciativas para registrar e divulgar essa tradição linguística.

Em 2023, a prefeitura reconheceu oficialmente a linguagem como patrimônio cultural imaterial do município. Para especialistas, o Camaco é um símbolo da criatividade e da resistência dos trabalhadores que encontraram na linguagem uma forma de criar identidade e proteção em um período marcado por profundas desigualdades sociais. 

Itabira não é o único lugar do Brasil com uma linguagem codificada

A ideia de inverter sílabas para criar um código secreto também tem uma versão própria no Rio de Janeiro. Moradores do Catete desenvolveram, a partir da década de 1960, a chamada Gualin do TTK (Língua do Catete, com sílabas invertidas).

Assim como acontece com a Guinlagem do Camaco, a proposta é transformar as palavras de modo que apenas quem conhece as regras consiga entender a conversa. Apesar da semelhança, a linguagem carioca sugiu em um contexto diferente. Segundo pesquisadores, a Gualin do TTK nasceu durante a ditadura militar como uma forma de driblar a repressão e fortalecer a identidade cultural da região. 

Nas últimas décadas, a Gualin ganhou projeção nacional por meio do rap carioca. Artistas como Filipe Ret, BK', Sain e Marcelo D2 incorporaram expressões da linguagem em suas músicas e ajudaram a difundir o código para além do Catete. 

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