China anuncia avanço em baterias de sódio: recarga em quatro minutos e mais de 6 mil horas de estabilidade

Nova tecnologia supera principal limitação das baterias de sódio e pode acelerar a substituição do lítio

carregador de bateria de celular
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
ana-serra

Carolina Rodrigues

Redatora
ana-serra

Carolina Rodrigues

Redatora

Imagine carregar completamente o celular no tempo de preparar um café, sem comprometer a vida útil da bateria. Embora pareça algo distante, pesquisadores chineses afirmam ter dado um passo importante nessa direção.

Um grupo formado por cientistas da Universidade do Sudeste da China, da HiNa Battery Technology e da Universidade de Yangzhou desenvolveu um novo eletrólito quase sólido especialmente projetado para baterias de sódio metálico.

Os resultados foram publicados na revista científica Nano-Micro Letters e mostram um desempenho que chama a atenção da indústria: a tecnologia permite uma recarga ultrarrápida equivalente a cerca de quatro minutos, mantendo 90% da capacidade da bateria após 2 mil ciclos de carga e descarga em alta velocidade.

O avanço reforça o potencial do sódio como alternativa ao lítio, material que atualmente domina o mercado de baterias.

Por que o sódio é tão promissor?

Há anos as baterias de sódio despertam interesse porque o elemento é muito mais abundante e barato que o lítio. Isso reduz custos de produção e diminui a dependência de cadeias globais de fornecimento, frequentemente afetadas por oscilações de preços e limitações de oferta.

O problema é que, até agora, existia uma espécie de troca inevitável: quanto mais rápida fosse a recarga, menor seria a durabilidade da bateria.

Essa limitação estava relacionada à movimentação lenta dos íons de sódio e à instabilidade das interfaces internas da célula.

Segundo os pesquisadores, a nova tecnologia conseguiu superar esse obstáculo. Em testes, uma célula simétrica de sódio operou por mais de 6 mil horas contínuas sem apresentar falhas associadas a curtos-circuitos.

Na prática, isso pode abrir caminho para veículos elétricos e dispositivos eletrônicos mais baratos, seguros e com tempos de carregamento muito menores.

Como funciona a nova tecnologia

Os cientistas chamaram a solução de “engenharia de mediadores duplos entrelaçados”.

Em termos simples, eles redesenharam o caminho percorrido pelos íons dentro da bateria, tornando seu deslocamento mais rápido e eficiente.

Nos eletrólitos convencionais, os íons de sódio encontram mais resistência para se mover. O chamado número de transferência — indicador que mede a eficiência desse transporte — costuma variar entre 0,4 e 0,7.

Já o novo eletrólito, batizado de Sn-FB QSE, alcançou um índice de 0,94, considerado próximo do ideal.

Isso significa que os íons de sódio conseguem se deslocar quase sozinhos, de forma direta e organizada, sem carregar outras partículas que dificultam o processo.

Dois componentes são a chave do avanço

Para alcançar esse resultado, os pesquisadores utilizaram dois elementos químicos que trabalham em conjunto.

O primeiro é o sal DFOB⁻, que reduz a ligação entre os íons de sódio e a estrutura polimérica do eletrólito. Com menos barreiras químicas, os íons conseguem se mover com muito mais rapidez.

Simulações computacionais indicaram que a velocidade de difusão alcançada foi cerca de seis vezes superior à observada em eletrólitos líquidos tradicionais.

O segundo componente são os íons de estanho (Sn²⁺).

Durante o carregamento, eles formam uma camada protetora sobre o ânodo da bateria. Essa película ajuda a distribuir uniformemente o depósito de sódio, evitando a formação das chamadas dendritas — estruturas metálicas microscópicas semelhantes a agulhas que podem perfurar a bateria e provocar curtos-circuitos.

Camada ultrafina aumenta a durabilidade

A proteção não acontece apenas no ânodo. No lado oposto da bateria, o DFOB⁻ também cria uma segunda camada protetora extremamente fina, com apenas 14 nanômetros de espessura.

Essa barreira impede a degradação do eletrólito quando submetido a altas tensões elétricas, aumentando significativamente a vida útil do sistema.

Segundo os pesquisadores, essa combinação é um dos principais fatores que permitiram alcançar mais de 6 mil horas de operação estável.

Testes mostram potencial para uso comercial

Muitas descobertas em baterias permanecem restritas a pequenos protótipos de laboratório. Neste caso, porém, os cientistas também realizaram testes em células flexíveis de maior porte, conhecidas como pouch cells.

Em uma demonstração, uma dessas baterias foi usada para alimentar continuamente um smartphone enquanto era dobrada e manipulada diversas vezes, sem perda de desempenho.

Outro ponto importante é que o eletrólito permanece estável em tensões de até 4,7 volts, o que pode permitir sua combinação com materiais ainda mais avançados no futuro.

Além disso, os pesquisadores afirmam que a tecnologia é compatível com os métodos atuais de fabricação e pode até ser adaptada para baterias de lítio e potássio.

O futuro das baterias pode estar no sódio

A possibilidade de carregar um celular em poucos minutos sem reduzir drasticamente a vida útil da bateria é considerada um dos grandes objetivos da indústria eletrônica.

Com avanços como esse, o sódio deixa de ser visto apenas como uma alternativa mais barata ao lítio e passa a ser considerado uma tecnologia de alto desempenho.

Embora ainda sejam necessários mais testes antes da chegada ao mercado, o estudo reforça a ideia de que o futuro do armazenamento de energia poderá depender menos do lítio e mais de materiais abundantes e acessíveis.

Se os resultados forem confirmados em escala industrial, a rotina de conectar o celular por alguns minutos e ter bateria para o dia inteiro pode estar mais próxima do que parece.

Imagem | Unsplash

Texto traduzido e adaptado do site Xataka Espanha. 

Inicio