Um novo estudo sobre a inteligência canina revela o método surpreendente que os cães usam para entender a linguagem humana

Mesmo sem compreender o significado das palavras como humanos, cães parecem encontrar pistas sonoras que ajudam o cérebro a separar um termo do outro

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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Quem convive com um cachorro provavelmente já teve a impressão de que ele entendeu exatamente o que foi dito, mesmo quando a frase não vinha acompanhada de um gesto ou comando conhecido. Um estudo publicado na revista Science sugere que essa sintonia pode estar relacionada a uma habilidade mais específica: os cães conseguem encontrar padrões nas palavras que ouvem e usam as consoantes como pistas para separar um termo do outro. 

A descoberta veio de um experimento realizado na Hungria, no qual pesquisadores analisaram a atividade cerebral de 20 cães e 20 humanos enquanto ambos ouviam sequências de palavras sem sentido. Com exames de eletroencefalografia, os cientistas observaram uma resposta cerebral mais forte diante de padrões consonantais, revelando uma estratégia de processamento da fala  bem parecida com a observada em humanos. 

Cães usam padrões de consoantes para organizar a fala

Para quem ouve uma conversa em outro idioma, uma das primeiras dificuldades é descobrir onde uma palavra acaba e a próxima começa. Na fala contínua, não existem pausas claras separando cada termo, então o cérebro precisa encontrar pistas que ajudem a transformar uma sequência de sons em unidades menores. É nesse processo de segmentação que as consoantes parecem ter um papel importante para cães e humanos. Em muitas línguas, elas carregam mais informações sobre as palavras do que as vogais. Por isso, mesmo sendo acusticamente menos salientes, os padrões formados por consoantes podem funcionar como pistas para organizar o que está sendo ouvido.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores criaram sequências de palavras sem significado e organizaram os sons em três condições: algumas apresentavam padrões definidos por consoantes, outras por vogais e uma terceira não seguia um padrão específico. Enquanto os participantes ouviam os estímulos, os cientistas registravam a atividade cerebral por eletroencefalografia.

Nos dois grupos, o cérebro apresentou maior sincronização neural durante as sequências estruturadas por consoantes. A diferença também apareceu em uma janela de aproximadamente 350 a 550 milissegundos, período associado ao processamento de palavras. Isso é importante porque as vogais são mais perceptíveis do ponto de vista acústico. 

Portanto, a preferência observada não parece ser simplesmente uma consequência de os cães estarem prestando mais atenção aos sons mais fáceis de ouvir. Os pesquisadores acreditam que os padrões consonantais podem ser mais úteis para agrupar uma sequência contínua de sons em unidades menores, permitindo que o cérebro encontre regularidades mesmo quando não conhece previamente as palavras.

A habilidade apareceu até em cães com pouca exposição à fala

cachorro com equipamentos neurológicos na cabeça Pesquisa indica que o cérebro dos cães encontra padrões nas consoantes para organizar os sons da fala

A pesquisa também tentou descobrir se essa capacidade depende de uma experiência muito precoce com a linguagem humana. Entre os 20 cães analisados estavam animais que haviam crescido em famílias e outros que passaram parte da vida em abrigos ou nas ruas antes de serem adotados. Mesmo entre os cães que provavelmente tiveram menos contato com a fala humana durante os primeiros períodos de desenvolvimento, o viés consonantal apareceu. Não houve uma diferença significativa entre os animais com exposição presumidamente precoce e tardia à fala.

Isso não significa que a experiência não tenha importância. Os pesquisadores destacam que o número de animais estudados é pequeno e que as informações sobre o passado de alguns cães eram incompletas. Ainda assim, os resultados sugerem que o mecanismo capaz de encontrar essas regularidades pode funcionar ao longo da vida e não depender exclusivamente de uma exposição precoce à linguagem humana.

A descoberta também ajuda a separar duas coisas que podem parecer iguais, mas não são. Os cães não precisam ter uma linguagem semelhante à humana para aproveitar os padrões presentes na fala. Isso acontece porque o cérebro é capaz de aprender com a repetição: ao ouvir uma sequência de sons, ele identifica quais elementos costumam aparecer juntos ou em determinadas posições. Essas regularidades funcionam como pistas para organizar o que está sendo ouvido, permitindo que os cães encontrem padrões na fala mesmo sem conhecer o significado das palavras.

No entanto, há uma questão evolutiva que permanece aberta. Os pesquisadores ainda não sabem se essa característica surgiu ou foi reforçada durante a domesticação dos cães, ao longo de milhares de anos de convivência com humanos, ou se ela representa uma capacidade cognitiva mais antiga dos canídeos. Uma forma de investigar essa diferença seria comparar cães com lobos criados em ambientes igualmente ricos em fala. 

Por enquanto, o que os dados mostram é mais específico e também mais curioso: mesmo sem falar, os cães parecem ter desenvolvido uma maneira de organizar a fala humana que se aproxima daquela usada pelo nosso próprio cérebro.

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