Em 1900, um engenheiro empreendeu uma tarefa monumental contra o deserto: hoje, seu legado é uma floresta de 800 hectares de frente para o Mediterrâneo

Um ambicioso plano de engenharia e reflorestamento conteve o avanço da areia e salvou a cidade

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Alguns destinos turísticos são tão deslumbrantes que parecem ser obra exclusiva da natureza, quando na realidade escondem uma profunda intervenção da engenharia humana. É o caso de Guardamar del Segura, uma cidade costeira da Espanha que, no final do século XIX, estava prestes a ser soterrada pela areia.

O avanço implacável das dunas ameaçava transformar a região em um verdadeiro deserto, engolindo casas, estradas e terras agrícolas, impulsionado pela força do vento. Para evitar essa catástrofe, as autoridades confiaram a missão ao engenheiro Francisco Mira Botella, que projetou e liderou uma das intervenções ambientais mais ambiciosas de sua época.

Os trabalhos formais começaram em 1900 com uma prioridade absoluta: estabilizar o terreno antes que a areia varresse a cidade do mapa. Mira adaptou um sistema idealizado por Nicolas Brémontier, então Inspetor Geral de Estradas e Pontes, que já havia se mostrado eficaz para deter o avanço das dunas na França.

A estratégia ia muito além do simples plantio de árvores em terrenos instáveis. Primeiramente, era essencial imobilizar a frente de areia. Para isso, construíram paliçadas de madeira e juncos que funcionavam como barreiras de contenção; essas estruturas aprisionavam o material carregado pelo vento, formando uma duna costeira artificial que servia como barreira.

Original

Assim que o terreno foi estabilizado, iniciou-se a fase intensiva de reflorestamento. A equipe testou diferentes variedades de plantas para determinar quais melhor toleravam as duras condições costeiras. Ao final, plantaram principalmente pinheiros, juntamente com palmeiras, eucaliptos e outras espécies capazes de prosperar naquele solo.

O projeto transformou completamente a paisagem local: foram construídos oito quilômetros de trilhas e 14 quilômetros de contradunas, além de viveiros, postos de guarda-florestal e armazéns de apoio. No total, as obras abrangeram entre 700 e 800 hectares de dunas móveis, transformando-as em uma exuberante floresta conhecida como Pinhal de Guardamar. Graças a essa barreira verde, o vento parou de soprar areia para as ruas e a cidade foi salva de ser soterrada.

O projeto também teve um forte componente social, já que os moradores de Guardamar del Segura participaram ativamente dos esforços de reflorestamento. A dedicação de Francisco Mira Botella ao projeto foi absoluta: mesmo após se aposentar em 1925, ele continuou a supervisionar voluntariamente o seu andamento até a conclusão final em 1930.

Mais de um século depois, a cidade mantém viva a sua memória através de uma casa-museu e dois monumentos dedicados a ele, em homenagem ao engenheiro que salvou sua comunidade.

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