Todos nós já tivemos alguma vez um pesadelo ou um sonho tão real que nos deixou com uma sensação muito ruim ao despertar. Normalmente, atribuímos isso ao estresse, a uma má digestão ou àquele filme que vimos antes de dormir. No entanto, a neurociência investiga se isso, na verdade, está associado a um aviso que o corpo nos dá porque uma doença que gerará sintomas físicos está se aproximando.
Esse fenômeno é conhecido como “sonho prodrômico”. Embora a ideia possa soar como ficção científica ou pseudociência, um estudo recente publicado em 2025 apresentou um modelo neurobiológico que explica como e por que isso acontece.
Como funciona
Para entender os sonhos prodrômicos, é preciso observar a fase REM do sono, que é justamente quando o cérebro não está “desligado” e é exatamente o momento em que os sonhos aparecem. Além disso, ele está realizando uma análise interna intensiva, processando o que se conhece como sinais interoceptivos, ou seja, a informação que chega sobre o estado de nossos órgãos e tecidos.
A partir desse momento, pode-se aplicar o modelo de McNamara, que se apoia na teoria da “codificação preditiva” do neurocientista Karl Friston. O que se propõe aqui, basicamente, é que o nosso cérebro funciona como uma máquina de prever, já que gera constantemente hipóteses sobre como o nosso corpo deveria estar ao compará-lo com um estado de saúde.
Dentro dessas hipóteses, se houver um desajuste sutil no organismo, como o início de uma infecção, é possível que o cérebro detecte um “erro” entre o que esperava encontrar (que é estar saudável) e o que realmente está acontecendo, que é esse começo de infecção.
Como, durante o sono REM, não temos acesso ao pensamento lógico consciente, o cérebro recorre então a áreas como a amígdala, que gerencia as emoções ameaçadoras, a ínsula, que processa a interocepção, e o córtex pré-frontal medial, para traduzir o alerta em uma metáfora visual.
Assim, uma dificuldade respiratória que não conseguimos detectar, como uma pneumonia em estágio inicial, poderia se traduzir em um sonho recorrente no qual estamos nos afogando, ou o prelúdio de uma forte enxaqueca poderia se manifestar como um sonho em que somos perseguidos. Como são sonhos muito marcantes, acabam sendo fáceis de lembrar.
A demonstração
O conceito não é novo. Já em 1967, o pesquisador Kasatkin documentou dezenas de casos de pacientes que experimentaram sonhos angustiantes pouco antes de sofrer um infarto. No entanto, a ciência moderna conseguiu ir um pouco além ao encontrar justamente o mecanismo que explica esse tipo de sonho.
Um dos casos mais chamativos de investigação está na doença de Parkinson, pois, antes mesmo de aparecerem os famosos tremores, muitos pacientes desenvolvem problemas no sono. Nesse caso, quem sofre de um transtorno comportamental do sono não apresenta a paralisia muscular habitual da fase REM, o que faz com que “atuem” de maneira muito agressiva em seus sonhos.
Outros exemplos documentados incluem pacientes com enxaquecas crônicas, nos quais foi relatado que até 40% relatam pesadelos antes da dor, ou os curiosos relatos das primeiras ondas de COVID-19, quando sonhos vívidos foram o primeiro “sintoma” relatado em vários grupos de pacientes.
Logicamente, ter um pesadelo horrível esta noite não significa que vamos ter uma grande infecção amanhã. A ciência estabelece diferentes limites, como, por exemplo, o fato de se tratar de um modelo teórico em que a maior parte das evidências se baseia em estudos observacionais. Por isso, ainda faltam estudos longitudinais que permitam confirmar se essa relação é direta.
Mas, apesar dessas limitações, os avanços que estamos vendo com estudos centrados em polissonografias e o progresso dos wearables e aplicativos de monitoramento do sono podem, em um futuro não muito distante, nos ajudar a usar nossas próprias noites como o sistema de alerta precoce mais sofisticado do mundo para nos anteciparmos a certas doenças.
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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