Há dois mil anos, cidadãos do Império Romano consideravam perfeitamente normal carregar micropênis nos bolsos

Imagens | Museu MET, Wikipédia e Carole Radatto (Flickr)
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Com cerca de três centímetros de comprimento, a peça é moldada em bronze com detalhes (anatômicos) requintados e, apesar de ter aproximadamente 1,8 mil anos, está notavelmente bem preservada. Trata-se de um falo; um pênis. Uma antiga estatueta representando a genitália masculina, recém-desenterrada por arqueólogos em um sítio romano em Cumbria, no noroeste da Inglaterra. O mais curioso, porém, não é a aparência da estatueta peniana em si, mas sim o tempo que os pesquisadores levaram para encontrá-la.

O Carlisle Cricket Club é um extenso complexo para entusiastas do críquete, localizado nos arredores da cidade de Carlisle, em Cumbria, Inglaterra. Ou melhor, hoje. Se voltarmos quase 20 séculos, este mesmo terreno, situado às margens do Rio Eden, abrigava um complexo termal onde os romanos vinham conversar e relaxar.

Anos atrás, um grupo de arqueólogos começou a investigar a área em busca de vestígios desse passado romano distante. Entre os muitos objetos recuperados no local, além de cerâmicas, fragmentos de pilares e cabeças de pedra esculpidas, há um que chamou a atenção: um pênis.

Como assim, um pênis?

A estatueta em questão foi revelada há algumas semanas pelo fotógrafo Pete Savin no X, e mostra essencialmente um falo de cerca de três centímetros de comprimento, feito de bronze, no qual ainda é possível observar alguns detalhes anatômicos capturados por seu criador. Ainda assim, os arqueólogos acreditam que a peça tenha cerca de 1,8 mil anos.

Seria lógico pensar que Savin ou o diretor do sítio arqueológico, Frank Giecco, teriam ficado surpresos ao se depararem com tal descoberta. No entanto, aconteceu justamente o contrário: o que os surpreendeu por muito tempo foi a ausência de quaisquer figuras fálicas entre as ruínas romanas de Carlisle. "É incomum não termos encontrado um objeto em forma de falo no sítio antes, já que ele é muito rico em outros tipos de objetos", admitiu Giecco à BBC.

Não diga pênis…

Não, diga amuleto, que era a função da estatueta encontrada em Cumbria. Os pesquisadores estão convencidos de que seu propósito não era simplesmente representar um pênis, e a peça não tinha um caráter obsceno ou sexual. Nem mesmo era um símbolo de fertilidade. Pelo menos, esse não era seu objetivo principal.

Para os romanos, o artefato provavelmente servia como um talismã, uma ferramenta de proteção destinada a atrair boa sorte e afastar o mau-olhado. Os romanos estavam tão convencidos do poder curativo dessas representações fálicas que as utilizavam frequentemente, seja representando-as em estatuetas que penduravam em seus cintos e usavam como joias, seja esculpindo-as em paredes.

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Um falo para a coleção

A verdade é que uma rápida pesquisa nos arquivos revela que descobertas como a de Cumbria são relativamente comuns, na Inglaterra ou na própria Cumbria. Em 2019, um grupo de arqueólogos da Universidade de Newcastle catalogou diversas inscrições deixadas por soldados romanos em uma pedreira perto da Muralha de Adriano. Essas inscrições, uma série de "grafites" gravados na rocha em 207 d.C., incluem (isso mesmo!) um relevo fálico.

No ano passado, outra equipe focada em Vindolanda, uma das fortalezas romanas que protegiam a Muralha de Adriano, deparou-se com uma surpresa semelhante. Durante as escavações, desenterraram um pingente em forma de pênis escondido entre os restos de uma muralha do século IV d.C. Os arqueólogos especulam que a peça de azeviche foi perdida no início desse mesmo século. E, dada a sua superfície polida, acreditam que o dono do amuleto o manuseava com frequência.

Pequeno, grande, imenso

A peça de Carlisle tem apenas três centímetros de comprimento, e a de Vindolanda (pelo menos pelas fotos compartilhadas pelos pesquisadores) parece ainda menor. No entanto, nem todas as representações eram tão minúsculas. Em 2022, enquanto investigavam um sítio arqueológico na província de Córdoba, os arqueólogos descobriram um baixo-relevo representando um falo de 45 centímetros de comprimento. A figura foi esculpida diretamente na pedra fundamental de um grande edifício, outra prática relativamente comum.

"Era comum colocá-los nas fachadas das casas, e os soldados usavam pequenos amuletos fálicos como símbolos de virilidade", explicou Andrés Rodlán, diretor do projeto, ao El País, embora também tenha reconhecido que a gravura de Córdoba foge ao padrão. "Esta é excepcionalmente grande." A lista de representações fálicas encontradas nos últimos anos continua a crescer, com descobertas que vão da terras da Grã-Bretanha até Omrit, em Israel.

Por que essa obsessão?

Especialistas acreditam que as figuras fálicas eram tão populares não por sua natureza explícita, mas por seu profundo simbolismo. Aqueles que carregavam uma estatueta de pênis ou decidiam esculpir uma em suas paredes não estavam simplesmente exibindo genitália masculina. Eles buscavam proteção com um amuleto capaz de afastar o mau-olhado. De fato, eles não se cercavam apenas de imagens anatomicamente precisas de pênis. Também criavam estatuetas fálicas com asas, em forma de animais ou com sinos.

"Emblemas fálicos são encontrados em uma grande variedade de objetos romanos, de amuletos e afrescos a mosaicos e lâmpadas. Eram símbolos destinados a atrair boa sorte e afastar espíritos malignos. Como testemunha o antigo autor Plínio, até bebês e soldados usavam tais amuletos para invocar a proteção divina", explica o Museu MET. A realidade é que, se a história nos ensinou algo, é que a humanidade sempre demonstrou uma fascinante inclinação para representar pênis em todos os lugares.

Imagens | Museu MET, Wikipédia e Carole Radatto (Flickr)

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