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Muito além da balança: o uso inesperado do Ozempic que pode revolucionar o tratamento contra o alcoolismo

A semaglutida suprime a liberação de dopamina induzida pelo consumo de álcool

Ozempic
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

1962 publicaciones de Victor Bianchin

O famoso Ozempic vem revolucionando há anos o tratamento da Diabetes tipo 2 e também tem um efeito importante sobre a obesidade ao ajudar os pacientes a emagrecer, provocando maior saciedade. No entanto, a comunidade científica já suspeitava há algum tempo de que seus efeitos iam muito além do controle de peso —agora, há indícios de que ele pode ter efeito contra o alcoolismo.

Um novo estudo publicado no início do mês na The Lancet aponta que esses medicamentos são capazes de reduzir de forma significativa os dias de consumo excessivo de álcool em pacientes que têm adicção em bebidas.

Até agora, as evidências sobre o uso desses medicamentos para tratar dependências se baseavam em estudos pequenos. A nova pesquisa, porém, apresentou um ensaio com o máximo de rigor para encontrar uma relação clara entre o uso de Ozempic e o controle da dependência.

Como foi feito

Durante 26 semanas, os pesquisadores acompanharam 108 pacientes adultos que sofriam ao mesmo tempo de obesidade e transtorno por consumo de álcool. A partir dessa amostra, o grupo tratado com semaglutida uma vez por semana apresentou uma redução de 41% nos dias de consumo excessivo de álcool, frente aos 26% do grupo placebo, que não recebia o tratamento.

Além disso, os pacientes medicados consumiram em média 1.026 gramas de álcool por mês, um número significativamente menor se considerarmos que o grupo de controle ingeriu 1.550 gramas de álcool. E ambos acreditavam que estavam tomando o mesmo tratamento, embora não fosse o caso.

Para entender por que isso acontece, precisamos voltar a 2023, quando um estudo demonstrou que a semaglutida, princípio ativo do Ozempic, liga-se diretamente ao núcleo accumbens de camundongos. O núcleo accumbens (NAcc) é o principal centro de recompensa, prazer e motivação do cérebro.

Ao fazer isso, a semaglutida suprime a liberação de dopamina induzida pelo consumo de álcool, interrompendo o circuito de recompensa que gera satisfação ao beber e que é justamente o efeito buscado pelos dependentes. Dessa forma, se o álcool não gera esse “barato” químico, o desejo de consumi-lo desaparece.

As limitações

Apesar do entusiasmo que isso pode gerar por representar um novo tratamento contra o alcoolismo — uma dependência com efeitos muito negativos —, é preciso cautela. Em termos técnicos, é importante ter em mente que 108 pessoas ainda representam um grupo relativamente pequeno para extrapolar os resultados para toda a população.

Além disso, todos os pacientes que participaram do estudo tinham obesidade e eram brancos, o que limita a generalização dos resultados para pacientes com peso normal ou de outras etnias. E, como se isso não bastasse, o ensaio foi financiado pelos fabricantes do medicamento e não conta com dados de acompanhamento além da semana 26.

Imagens | freepik, freepic.diller (Magnific)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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