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É ótimo usar o Estreito de Ormuz como arma geopolítica, mas o mundo está começando a evitar o Irã, e pode ser que o faça para sempre

Imagens | BBC – Agência Tasnim, Pezibear
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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O Irã vem usando o Estreito de Ormuz como arma geopolítica há anos. No entanto, o problema para Teerã é que essa estratégia pode se voltar contra ele mais cedo do que se imagina.

O que durante décadas foi um dos maiores gargalos energéticos do planeta está perdendo importância relativa, à medida que produtores, empresas de transporte marítimo e as principais economias já estão reorganizando suas cadeias de suprimentos e diversificando suas rotas.

O golpe pode ser especialmente duro para a própria economia iraniana. Quase 80% das exportações totais do país, cerca de 60% da receita tributária do regime e aproximadamente um quarto do seu PIB ainda dependem da abertura do Estreito de Ormuz.

Ou, dito de outra forma: quanto mais o Irã ameaça usar o estreito como arma política, mais expõe sua própria vulnerabilidade.

Dependência energética global não é mais a mesma

A grande transformação do mercado de energia nos últimos anos reduziu a influência de alguns países produtores específicos. Os Estados Unidos consolidaram sua posição como a maior superpotência energética do mundo graças à ascensão do petróleo de xisto e do gás natural liquefeito.

Atualmente, o país exporta mais de 8 milhões de barris por dia de derivados de petróleo, além de enormes quantidades de GNL, diesel, fertilizantes e combustível de aviação para a Europa, Ásia e América Latina.

Além disso, produtores como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos expandiram sua capacidade produtiva e podem adicionar rapidamente milhões de barris ao mercado. De fato, os Emirados Árabes Unidos poderiam aumentar sua produção em cerca de 4 milhões de barris por dia.

Isso significa que grande parte do petróleo que antes dependia diretamente do Estreito de Ormuz agora pode ser substituída por outras rotas e outros produtores.

Irã está ameaçando uma rota da qual depende fortemente

O problema para Teerã é que, embora o estreito continue importante para o comércio global, ele é ainda mais crucial para a própria economia iraniana.

O país precisa manter suas exportações de energia abertas para sustentar a receita pública, as reservas cambiais e a estabilidade orçamentária. A ameaça de bloqueio do Estreito de Ormuz está criando tensão no mercado, como está acontecendo atualmente, mas também está incentivando outros países a acelerarem a busca por alternativas permanentes.

A situação lembra o que aconteceu na Europa após a invasão russa da Ucrânia. Muitos países entenderam que a dependência excessiva de um fornecedor geopoliticamente instável representava um enorme risco estratégico.

Desde então, a Europa reduziu consideravelmente sua dependência energética da Rússia por meio da diversificação de fornecedores, terminais de gás natural liquefeito e novas infraestruturas. Um fenômeno semelhante poderia ocorrer no Estreito de Ormuz?

Grandes companhias de navegação já estão mudando suas rotas

As principais companhias de navegação reconhecem o estreito como um risco constante há meses. Como resultado, gigantes como Maersk, MSC e CMA CGM estão tomando medidas.

Elas estão desviando parte de seu tráfego para portos alternativos localizados no Golfo de Omã e no Mar Vermelho. Portos como Fujairah, Sohar e Khor Fakkan estão ganhando destaque logístico nesta primavera, à medida que as empresas reorganizam suas cadeias de suprimentos.

Além disso, muitas rotas que tradicionalmente cruzavam os canais de Suez e Ormuz estão começando a ser desviadas ao redor do Cabo da Boa Esperança, apesar do aumento no tempo e nos custos logísticos. Essas empresas preferem absorver custos operacionais mais altos a depender de uma área instável e, claro, se tornarem alvos de bombas.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm vantagem

Enquanto o Irã depende fortemente do Estreito de Ormuz, seus vizinhos vêm desenvolvendo alternativas há anos. A Arábia Saudita expandiu a capacidade do Petroline, um enorme oleoduto que conecta os campos de petróleo do leste ao Mar Vermelho.

Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, exportam petróleo bruto diretamente de Fujairah, contornando completamente o estreito. O Irã, no entanto, permanece dependente de uma única rota marítima.

Economia iraniana em dificuldades

Após semanas de conflito com os EUA e Israel, as consequências econômicas começam a ser sentidas dentro do próprio país. As exportações de petróleo iranianas despencaram de cerca de 2 milhões de barris por dia para menos de 600.000. Isso representa uma queda de mais de 70%. Navios-tanque carregados com petróleo bruto iraniano estão se acumulando perto da Ilha de Kharg.

Entretanto, o rial iraniano está sendo negociado a mínimas históricas em relação ao dólar no mercado informal, aproximando-se de 1,8 milhão de riais por dólar americano. A perda de confiança na moeda acelerou a fuga de capitais e aumentou ainda mais a pressão inflacionária.

Um ponto importante deve ser considerado: o Irã é altamente dependente de importações para diversos bens básicos e industriais. Portanto, a depreciação da moeda é rapidamente repassada para o preço de alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais.

Em apenas algumas semanas, produtos básicos como frango, carne e laticínios sofreram aumentos acentuados de preços. A inflação oficial ultrapassa os 70% ao ano, e há temores de uma deterioração ainda maior caso o rial continue a se desvalorizar.

Enquanto isso, setores industriais inteiros operam muito abaixo da capacidade. Milhares de fábricas e complexos petroquímicos reduziram a produção ou paralisaram completamente suas atividades devido à guerra.

Nada disso significa que o estreito tenha perdido sua importância, longe disso. Mas o Irã pode estar caminhando em uma corda bamba que, a médio prazo, pode se romper e, pior ainda para o país, romper-se permanentemente.

Imagens | BBC – Agência Tasnim, Pezibear

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