Era considerado uma sentença de morte: cientistas na Espanha conseguem fazer tumores de câncer de pâncreas desaparecerem

Estudo do CNIO mostra que uma terapia tripla conseguiu eliminar tumores pancreáticos em animais e impedir a resistência ao tratamento, mas ainda está longe dos testes em humanos

Rato em laboratório. Créditos: ShutterStock
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O câncer de pâncreas está entre os tumores mais agressivos da medicina. Na maioria dos casos, ele é diagnosticado em estágios avançados, responde mal aos tratamentos disponíveis e tem uma taxa de sobrevida em cinco anos inferior a 10%.  No entanto, um estudo conduzido na Espanha trouxe esperança para o combate da doença ao identificar uma forma inédita de fazer tumores pancreáticos desaparecer - pelo menos em laboratório.

Pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha (CNIO) conseguiram eliminar completamente tumores pancreáticos em modelos animais usando uma estratégia de terapia tripla, capaz de reduzir os tumores e impedir que eles retornem. Os resultados, publicados na revista científica PNAS, trazem esperança por oferecer novos caminhos para futuros tratamentos em humanos.

Por que o câncer de pâncreas resiste a quase todo tipo de tratamento? 

O câncer de pâncreas é um dos mais difíceis de tratar devido a uma combinação de fatores. Em primeiro lugar, ele costuma ser diagnosticado tardiamente, quando já está avançado, além de ser considerado agressivo. Em cerca de 90% dos casos, o tumor carrega mutações no gene KRAS, um dos oncogenes mais estudados e também um dos mais problemáticos da oncologia.

Embora medicamentos capazes de bloquear o KRAS tenham começado a ser aprovados em 2021, após anos sem muitos avanços além da quimioterapia tradicional, os resultados do tratamento foram bem limitados. Isso porque, na prática, os tumores aprendem rápido e, em poucos meses, desenvolvem resistência e voltam a crescer, tornando os tratamentos progressivamente ineficazes.

Terapia tripla conseguiu eliminar tumores e evitar a resistência

Diante de um câncer conhecido por driblar praticamente todos os tratamentos disponíveis, a equipe do Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha (CNIO) decidiu atacar justamente o ponto onde a maioria das terapias falha: a rápida adaptação do tumor. Liderados pelo oncologista espanhol Mariano Barbacid, os pesquisadores partiram de uma pergunta central: como impedir que o câncer de pâncreas desenvolva resistência e volte a crescer após os primeiros meses de tratamento?

A resposta veio na forma de uma estratégia que não é muito comum. Ao invés de bloquear o KRAS em apenas um ponto da sua via de sinalização molecular, os cientistas decidiram atacar três pontos diferentes ao mesmo tempo. Para isso, o grupo combinou:

  • Um inibidor experimental de KRAS (daraxonrasib);
  • Um medicamento já aprovado para certos cânceres de pulmão (afatinibe);
  • Um degradador de proteínas (SD36).

Para a surpresa de todos, os resultados foram positivos. Em três modelos diferentes de adenocarcinoma ductal pancreático em camundongos, a terapia levou a uma regressão significativa e duradoura dos tumores, sem sinais relevantes de toxicidade. Além disso, os tumores não voltaram, algo raro nesse tipo de câncer. Essa foi a primeira vez que se conseguiu eliminar completamente tumores pancreáticos em animais, sem que surgisse resistência ao tratamento.

A nova terapia contra o câncer de pâncreas ainda enfrenta obstáculos para testes clínicos

Apesar do impacto positivo dos resultados, os cientistas precisaram segurar todo o entusiasmo. Isso porque, de acordo com Mariano Barbacid, a terapia tripla ainda não está pronta para ser testada em pacientes. Para que isso seja possível, é necessário ajustar doses, entender interações entre os medicamentos e garantir segurança nos humanos, um processo que será complexo e demorado. Ou seja, a terapia não traz a cura, mas prova que o câncer de pâncreas pode ser combatido. E para uma doença historicamente tratada como sentença de morte, isso já é um avanço enorme.


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