Por ser menos calórico, muita gente troca o açúcar por um adoçante na hora de adoçar o cafézinho. Sucralose e estévia, por exemplo, são adoçantes populares e amplamente utilizados como alternativas ao açúcar, mas o que muita gente não sabe é que seus efeitos podem ser prejudiciais para a saúde a longo prazo. Um novo estudo, publicado na revista científica Frontiers in Nutrition, descobriu que o consumo desses adoçantes alterou a microbiota intestinal e outros processos metabólicos em camundongos, e algumas dessas mudanças apareceram também nas gerações seguintes. O efeito foi mais forte no caso da sucralose, que deixou alterações detectáveis até mesmo em descendentes que nunca consumiram o produto.
Experimento acompanhou três gerações de camundongos
Para descobrir se o efeito dos adoçantes poderia ultrapassar o organismo que os consumiu, os pesquisadores dividiram 47 camundongos machos e fêmeas em três grupos. Durante 16 semanas, um grupo recebeu apenas água, enquanto os outros receberam água com sucralose ou estévia em uma concentração de 0,1 mg/ml. As doses foram calculadas para se aproximar da ingestão diária aceitável estabelecida para humanos.
Depois, os animais da primeira geração foram cruzados para produzir a geração F1. Esses descendentes foram novamente cruzados para gerar a F2. O detalhe importante é que F1 e F2 não receberam os adoçantes diretamente: ambas as gerações tiveram acesso apenas à água pura e à mesma ração padrão.
A equipe então acompanhou diferentes sinais biológicos para entender o que havia mudado. Os animais passaram por testes de tolerância à glicose, tiveram amostras fecais analisadas para identificar alterações na microbiota e foram avaliados quanto às concentrações de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), compostos produzidos pelas bactérias intestinais. Eles também observaram a expressão de genes ligados à inflamação, à barreira intestinal e ao metabolismo.
O resultado não foi exatamente igual para os dois adoçantes. Na primeira geração de descendentes, por exemplo, alterações relacionadas à glicose associadas à sucralose apareceram principalmente nos machos. Na F2, os machos do grupo da sucralose apresentaram glicemia de jejum mais elevada que os controles, enquanto as fêmeas do grupo da estévia também apresentaram aumento da glicemia de jejum. Mas foi na combinação entre microbiota, metabolismo e expressão gênica que os pesquisadores encontraram algumas das mudanças mais interessantes.
Sucralose foi a que mais alterou a microbiota e deixou marcas por mais tempo
Usados para substituir o açúcar, sucralose e estévia podem provocar mudanças na microbiota intestinal
A microbiota intestinal dos animais que consumiram os adoçantes não permaneceu igual à do grupo de controle. Os pesquisadores encontraram alterações na diversidade e na composição das comunidades bacterianas, e parte dessas mudanças apareceu também nas gerações que não tiveram contato direto com sucralose ou estévia.
A sucralose foi novamente a que apresentou o efeito mais marcante. Na F0, 17 gêneros bacterianos diferiram do grupo de controle no grupo que recebeu o adoçante. Nas gerações seguintes, outras alterações continuaram sendo identificadas. Entre elas estavam mudanças em bactérias como Oscillibacter, associada à produção de butirato, e Candidatus Saccharimonas, relacionada no estudo a estados inflamatórios.
Outro ponto chamou a atenção: os animais expostos aos adoçantes apresentaram menores concentrações de ácidos graxos de cadeia curta, metabólitos produzidos pela microbiota intestinal. Acetato e valerato, por exemplo, diminuíram nos animais F0 que receberam sucralose ou estévia. Na geração seguinte, a redução foi ainda mais ampla no grupo da sucralose, atingindo acetato, propionato, butirato e valerato. Na F2, as concentrações desses compostos continuaram menores nos grupos que receberam os adoçantes.
Esses compostos são importantes porque participam de processos relacionados à inflamação, ao metabolismo e à regulação da atividade genética. O estudo sugere que a alteração da microbiota pode estar por trás de parte dessas mudanças: ao modificar quais bactérias vivem no intestino e como elas funcionam, os adoçantes poderiam alterar também os metabólitos produzidos por elas.
A sucralose também esteve associada a alterações na atividade de genes ligados à inflamação. A expressão intestinal de Tlr4 e Tnf aumentou nos animais expostos à sucralose e essas alterações permaneceram na geração F1. Já a expressão de Srebp1, gene relacionado ao metabolismo e à produção de gordura no fígado, permaneceu reduzida nas gerações F1 e F2. No caso da estévia, as alterações em Tlr4 e Tnf foram observadas principalmente na F1 e depois se normalizaram.
Isso não significa que os animais desenvolveram diabetes ou alguma doença metabólica. Os próprios pesquisadores ressaltam que observaram sinais biológicos e alterações sutis, e não o desenvolvimento de uma doença. A hipótese é que essas mudanças possam aumentar a suscetibilidade a problemas metabólicos em determinadas condições, mas isso ainda precisa ser investigado.
Apesar dos resultados, é importante lembrar que existe uma diferença importante entre mostrar um efeito em camundongos e demonstrar o mesmo fenômeno em seres humanos. O experimento indica uma associação entre o consumo parental dos adoçantes e alterações observadas nas gerações seguintes, mas não prova que a sucralose ou a estévia causem diretamente esses efeitos em pessoas.
Os próprios autores também apontam limitações no desenho do experimento. Não foi possível separar completamente os efeitos relacionados à exposição durante a gestação daqueles associados ao período perinatal, nem determinar isoladamente quanto veio da mãe ou do pai. Por isso, a conclusão não é que uma lata de refrigerante zero ou um café com adoçante vai alterar a saúde dos filhos e netos.
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