Em 1919, Henry Ford usou seu melhor truque para retomar o controle da Ford: "Não temos espaço para acionistas que não trabalham"

Henry Ford cansou-se de seus acionistas estarem mais interessados ​​em seus dividendos do que em suas ideias expansionistas, então empregou um truque: criar uma concorrente com outra marca para retomar o controle da Ford

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Diz a lenda que Henry Ford queria dar o mundo à classe trabalhadora. Isso é parcialmente verdade, mas ele fez isso para seu próprio benefício. No entanto, o que Henry Ford não suportava era que alguém lhe dissesse o que fazer com seu dinheiro. Em 1919, ele demonstrou isso com um blefe tão bem executado que ainda é estudado em faculdades de direito.

O objetivo do blefe era se livrar dos acionistas que, como o próprio Ford relatou em sua autobiografia, "não temos espaço para". Então, ele elaborou um plano para retomar o controle de sua empresa: a promessa de fabricar um carro de US$ 250, mas fundando outra empresa que competiria com a Ford.

O grande projeto de Ford que os acionistas não aprovaram

Ford era avesso a empréstimos de Wall Street e, por isso, em 1916, sua empresa acumulou uma reserva de capital de mais de US$ 60 milhões em dinheiro. Seu objetivo era construir sua nova fábrica em River Rouge e equipá-la com sua própria fundição para fabricar seu próprio aço.

Este grande projeto de expansão significava cortar os dividendos extraordinários, que chegavam a cerca de US$ 10 milhões por ano, e reduzir ainda mais o preço do Modelo T para aumentar as vendas. Os irmãos John e Horace Dodge possuíam 10% das ações da Ford, mas já fabricavam seus próprios carros. Em outras palavras, Ford estava essencialmente financiando sua concorrência, que dependia desses dividendos para continuar produzindo seus próprios carros.

Os juízes enterraram o sonho de Ford

Como relatado na biografia "Eu Inventei a Era Moderna: A Ascensão de Henry Ford e o Carro Mais Importante Já Fabricado", os irmãos Dodge o levaram ao tribunal em 1916.

Em seu depoimento, Ford afirmou que sua empresa estava "organizada para fazer todo o bem possível, em todos os lugares, para todos os envolvidos. O dinheiro cairá em suas mãos; vocês não podem evitar", disse ele, acusando os irmãos Dodge de trabalharem em benefício próprio. "O acionista que trabalha está mais ansioso para aumentar sua oportunidade de servir do que para acumular dividendos", repreendeu Ford durante o julgamento.

Apesar das declarações épicas de Ford, o juiz não se convenceu.

Três anos depois, a Suprema Corte de Michigan decidiu que uma corporação existe, acima de tudo, para o benefício de seus acionistas e ordenou que Ford distribuísse US$ 19,2 milhões em dividendos. Ford saiu do tribunal com uma ideia em mente: ele nunca mais pediria permissão a ninguém. E ele tinha um plano para evitar que isso acontecesse novamente.

Um truque que ele já tinha tentado

Para alcançar esse objetivo, Ford inspirou-se em uma estratégia que havia funcionado para ele em 1905 com seu primeiro grande sócio, Alexander Malcomson, um comerciante de carvão. O investidor havia fornecido o capital para iniciar a empresa com Ford, mas queria que Ford fabricasse carros de luxo.

Ford recusou categoricamente. "Um carro não deveria ter mais cilindros do que uma vaca tem tetas", afirmou. Sua ideia era construir carros baratos para que todos pudessem comprá-los e implementar sua ideia de produção em massa. O conflito era inevitável.

Ford e seu braço direito, James Couzens, criaram secretamente uma empresa paralela: a Ford Manufacturing Company. Ela fabricava peças e as vendia para a matriz a um preço inflacionado. Todo o lucro ia para essa subsidiária, na qual Malcomson não possuía uma única ação. Encurralado, ele vendeu sua participação em 1906 por US$ 175 mil. Uma década depois, suas ações valeriam cem vezes mais.

O anúncio que confundiu Detroit

Tendo aprendido a lição, Ford repetiu a estratégia. A mudança ocorreu em 1919, mas desta vez em escala global. Em 30 de dezembro de 1918, ele renunciou à presidência. Passou o cargo para seu filho Edsel e foi para a Califórnia passar férias, usando o cansaço jurídico como desculpa. De lá, vazou a notícia. Uma bomba.

Em março de 1919, o jornal The New Times publicou um artigo anunciando que Ford iria criar uma nova empresa para fabricar "um carro melhor e mais barato". O Modelo T, disse ele, já estava ultrapassado, e o carro que fabricaria com sua nova empresa incorporaria "algumas novas invenções que reduziriam o custo", permitindo que o novo modelo custasse entre US$ 250 e US$ 350.

O medo da perda acelerou a venda em massa das ações

O blefe do fundador da empresa funcionou como esperado. Sem a visão inovadora de Ford no comando, as ações da empresa logo se tornariam sem valor. Ford recrutou alguns gestores de investimento disfarçados para abordar discretamente os acionistas e pedir que vendessem suas ações antes que o pânico se instalasse.

Quase todos cederam. John Anderson, que em 1903 pediu ao pai US$ 5 mil para investir na Ford, recebeu US$ 12,5 milhões. Os herdeiros de John Gray, o banqueiro e primeiro presidente da Ford, que duvidava que "este negócio fosse durar", levaram para casa US$ 26,25 milhões. Até mesmo os irmãos Dodge, seus adversários no processo, venderam suas ações da Ford por US$ 25 milhões.

A Ford era novamente de Ford

Como confirmado pela reportagem do New York Times da época, apenas James Couzens, que já estava ciente da manobra de Ford em 1905, resistiu à tentação de vender suas 2.180 ações e obteve US$ 13 mil por ação (em comparação com os US$ 12,5 mil que pagou aos demais). Em julho de 1919, Ford conseguiu um empréstimo de US$ 75 milhões de Wall Street e retomou o controle como único proprietário da maior empresa industrial do mundo.

O prometido carro de US$ 250 nunca se materializou. Esse projeto foi discretamente abandonado assim que cumpriu seu propósito: assustar os investidores o suficiente para que Ford pudesse comprar barato o que, na verdade, valia uma fortuna.

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