O café é uma bebida associada à energia que está presente na rotina de milhões de pessoas, especialmente entre os brasileiros, o maior produtor e exportador mundial de grãos. Mas, na Coreia do Sul, a relação com a cafeína é um pouco diferente, quase uma obsessão, e ganhou proporções que já fazem parte da cultura local. Essa “tendência” ganhou o nome de “caffeinetopia”, uma expressão usada para descrever uma cultura em que o café e outras bebidas com cafeína estão por toda parte e acompanha os jovens em diferentes momentos do dia, seja em cafés, em casa ou bebidas vendidas em lojas de conveniência.
O tamanho dessa dependência ao café é retratado até em piadas autodepreciativas, que chamam o café preto de “bolsa de sangue”, como se a bebida fosse necessária para manter o corpo funcionando. Por trás da brincadeira, porém, existe um problema cultural alimentado pela pressão acadêmica e facilidade de acesso, fatores que ajudam a explicar por que a cafeína passou a ser tão presente na rotina de muitos jovens sul-coreanos. O hábito também vem chegando cada vez mais cedo, alcançando crianças e adolescentes, justamente em uma fase em que o organismo ainda está em desenvolvimento e os efeitos do consumo frequente de cafeína pode ser arriscado.
Caffeinetopia transforma a cafeína em combustível para estudar, trabalhar e até passar o tempo
Na Coreia do Sul, a cafeína não é só uma bebida tomada pela manhã para despertar e espantar o sono. Por lá, o consumo de cafeína ganhou uma dimensão diferente entre os jovens. O café e outras bebidas estimulantes fazem parte de uma rotina marcada por longas jornadas de estudo, pressão por desempenho e pouco tempo para descansar. Por isso, existem milhares de cafeterias, lojas de conveniência e supermercados espalhados no país oferecendo uma variedade cada vez maior de opções, que vão muito além do cafézinho preto.
A mudança também aparece na idade em que os jovens começam a consumir a substância. Entre crianças e adolescentes, o contato com a substância pode acontecer cada vez mais cedo, muitas das vezes por meio de produtos que nem lembram café. Bebidas energéticas coloridas, refrigerantes, matcha, chás com leite e bebidas de café solúvel podem funcionar como portas de entrada, especialmente quando combinam cafeína com sabores doces e uma apresentação mais atraente para o público infantil. E existe um detalhe que torna tudo ainda mais fácil de ignorar: muitas dessas bebidas não têm a aparência de um café forte. Para dimensionar a quantidade de cafeína presente em algumas delas:
- um café expresso pode ter entre 60 e 75 mg;
- um matcha latte fica em torno de 65 mg;
- um chá com leite costuma ter cerca de 50 mg;
- um café americano pode chegar a aproximadamente 225 mg;
- uma bebida energética típica pode conter cerca de 160 mg.
Além disso, os jovens também criam suas próprias combinações. Uma das mais polares é o “Eol-bak-sa”, feito com gelo, Bacchus, uma bebida cafeinada com taurina, e limonada. Outras combinações também ganharam nomes próprios, como o “A-shot-chu”, que mistura chá gelado com uma dose extra de café expresso, e o “Bak-gal-bae”, que combina Bacchus com uma bebida coreana de pera.
@kimlyparc "Ashotchu" (#아샷추), short for "Iced tea with an added shot," is a trending drink in Korean cafés — and yes, it's exactly what it sounds like: fruity iced tea with a shot of espresso.🍑☕ It might sound like a strange combo, but it’s surprisingly refreshing — sweet, bitter, and perfect for summer. 🌞 Would you try it? #seoulcafe #seoul #ashotchu #coffeetok #korea ♬ Bossa Nova jazz that seems to fit in a cafe(1433079) - TAKANORI ONDA
Mas por que tanta cafeína virou parte da rotina? A resposta passa principalmente pela pressão por produtividade. Jovens coreanos relatam recorrer à substância para permanecer acordados, estudar por mais tempo e melhorar a concentração. Uma pesquisa publicada na Revista Coreana de Educação Médica mostrou que 60,9% dos estudantes de medicina ouvidos na Coreia do Sul disseram consumir cafeína para melhorar o desempenho acadêmico. O levantamento foi realizado em 2023 com 361 alunos.
A acessibilidade também entra nessa equação. Por toda a Coreia do Sul, é possível encontrar cafeterias de baixo custo, lojas de conveniência que vendem bebidas energéticas e cafés enlatados, além de aplicativos que permitem pedir uma bebida praticamente a qualquer hora do dia.
O café virou uma necessidade? Os sinais de que o hábito passou do limite
Cafeterias, lojas de conveniência e máquinas de venda espalhadas pelas cidades tornam o café uma opção fácil de encontrar na Coreia do Sul, reforçando a presença da cafeína na rotina
A dependência cultural da cafeína é tão conhecida na Coreia que os próprios consumidores fazem piada sobre isso nas redes sociais. É o caso do meme “bolsa de sangue”, usado de forma irônica para se referir ao café preto. A metáfora resume uma sensação comum entre consumidores: o café não seria mais apenas algo agradável de beber, mas um “combustível” necessário para continuar funcionando.
O problema aparece quando essa lógica chega a pessoas cada vez mais jovens. Um estudo de revisão publicado na Revista Médica de Minas Gerais, que analisou pesquisas sobre o tema publicadas entre 2004 e 2014, aponta que ainda não há segurança estabelecida para o consumo de bebidas cafeinadas por crianças e adolescentes. Segundo os pesquisadores, a cafeína não oferece benefícios conhecidos nessa faixa etária e pode provocar efeitos adversos, interferir no desenvolvimento dos sistemas nervoso e cardiovascular e aumentar o risco de dependência e intoxicação.
Os energéticos tornam a situação ainda mais delicada. Segundo a revisão, uma lata costuma conter entre 80 e 140 mg de cafeína, quantidade que pode equivaler aproximadamente a uma xícara de café ou a duas latas de refrigerante. O estudo também ressalta que essas bebidas podem conter outras substâncias estimulantes, como taurina e derivados vegetais, cujos efeitos combinados ainda não são completamente conhecidos.
E os sinais de que o consumo excessivo não é apenas uma preocupação teórica aparecem também entre jovens adultos. A pesquisa publicada na revista coreana de educação médica avaliou estudantes do primeiro ao último ano de uma faculdade de medicina do país. Dos 443 estudantes, 361 responderam ao questionário. A ingestão média estimada foi de 274,6 mg de cafeína por dia, e 19,9% dos participantes consumiam 400 mg ou mais diariamente.
O estudo também encontrou uma frequência elevada de sintomas entre os participantes. 98% relataram pelo menos um sintoma que poderia estar relacionado à cafeína, sendo os mais citados:
- 47,4% relataram palpitações;
- 42,9% tiveram micção frequente;
- 27,1% relataram ansiedade;
- 17,5% tiveram indigestão;
- 17,5% relataram excitação;
- 14,7% apresentaram inquietação.
O dado mais interessante, porém, talvez esteja no motivo pelo qual esses estudantes bebiam tanta cafeína: a busca por um desempenho acadêmico melhor apareceu como principal motivação. Isso ajuda a explicar por que a caffeinetopia é um problema muito maior do que uma simples preferência por café. Quando a bebida passa a ser usada para compensar o sono, prolongar horas de estudo ou sustentar uma rotina de produtividade extrema, isso pode afetar diretamente a saúde e o bem-estar do jovem.
Isso não significa que ela não deve ser consumida: a cafeína pode até funcionar como um empurrão contra o cansaço. Mas, quando crianças, adolescentes e jovens passam a enxergá-la como combustível obrigatório para acompanhar uma rotina cada vez mais exigente, a “bolsa de sangue” se torna um retrato de uma sociedade cada vez mais cansada, que parece ter cada vez menos espaço para parar e descansar.
Ver 0 Comentários