Uma estrela moribunda sobrevive perto do buraco negro da Via Láctea e intriga os cientistas

No fundo, um buraco negro não é um aspirador gigante

Buraco negro
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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As estrelas, em suas fases finais, são uma fábrica de materiais para a construção de novos planetas e outros corpos celestes. Porém, se estiverem perto demais de um buraco negro supermassivo, ele pode destruir todos esses novos materiais, impedindo que a roda continue girando. Ou era isso que se acreditava até agora.

Segundo um estudo publicado recentemente a partir de dados do telescópio James Webb, pode ser que os buracos negros não sejam tão vorazes assim ou que, pelo menos, existam estrelas moribundas extremamente resistentes. Tudo isso foi observado na vizinhança de Sagitário A*, o buraco negro que se encontra no centro da nossa galáxia, a Via Láctea.

Graças ao MIRI, o instrumento do James Webb que coleta dados no infravermelho médio, os autores deste estudo puderam penetrar no interior das camadas de poeira que cercam a IRS 3, uma estrela muito antiga, de 72 milhões de anos, que se encontra a apenas 0,55 ano-luz de Sagitário A*. Esperava-se que ela fosse rica em carbono. No entanto, ao analisar como a luz interage com a poeira, constatou-se que os materiais expelidos pela estrela são muito ricos em silicatos.

A presença de silicatos significa que essa poeira é rica em silício, mas também em oxigênio. Este, junto com o hidrogênio, contribui para a formação de água, que também foi detectada ao redor da estrela. Se Sagitário A* se comportasse como o esperado, esses elementos não resistiriam à influência do buraco negro. No entanto, parece que a IRS 3 resistiu melhor do que o esperado, abastecendo o entorno do buraco negro com os elementos necessários para a construção de novos objetos celestes.

Os buracos negros não são aspiradores gigantes

Tendemos a pensar em um buraco negro como um aspirador gigante, capaz de atrair, sem possibilidade de retorno, tudo o que se aproximar dele. Isso está correto, mas apenas até certo ponto. Os buracos negros, especialmente os supermassivos, como Sagitário A*, têm uma massa imensa. Seu nome faz jus ao que prometem. Como qualquer objeto, eles exercem ao seu redor uma atração gravitacional que aumenta com sua massa, de modo que nem mesmo a luz consegue escapar deles.

Mas isso ocorre apenas até certa distância, conhecida como horizonte de eventos (região ao redor de um buraco negro da qual nada, nem mesmo a luz, consegue escapar para o exterior). Uma estrela ou outro objeto que esteja além dessa fronteira até pode ainda ser atraído gravitacionalmente pelo buraco negro e, dependendo de sua trajetória, acabar atravessando o horizonte de eventos — mas não é certo que isso vai acontecer.

A influência do buraco negro também se percebe além do horizonte de eventos. Para começar, há atração suficiente para manter estrelas e outros objetos em suas proximidades. Além disso, a radiação liberada à medida que a matéria vai caindo no interior do buraco negro pode destruir materiais muito mais distantes do que o horizonte de eventos. Por fim, até mesmo as próprias forças gravitacionais podem despedaçar estruturas que não sejam bem coesas. Considerando tudo isso, acreditava-se que a IRS 3 não poderia manter os silicatos e a água intactos ao seu redor. Ela está além do horizonte de eventos, mas poderia sofrer esses outros efeitos.

À revista Popular Science, cientista da ESA Macarena García Marín explicou que a descoberta é empolgante porque indica que, mesmo perto de um buraco negro supermassivo, as estrelas podem continuar devolvendo material ao seu entorno.

Ou seja, os buracos negros não são tão devastadores quanto acreditávamos — ou pelo menos não o que está no centro da nossa Via Láctea. Agora só falta verificar se algo semelhante acontece com outros buracos negros supermassivos.

Imagem| Shocksingularity

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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