Por que dirigir parece seguro, mas é 626 vezes mais perigoso do que voar? Estudo revela a psicologia por trás do medo de avião explica como a ilusão de controle faz pessoas trocarem o ar pela estrada

Sensação de controle, familiaridade e cobertura da mídia ajudam a explicar por que dirigir parece mais seguro do que voar

Por que dirigir parece seguro, mas é 626 vezes mais perigoso do que voar?
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Natália P. Martins

Redatora

Apesar de acidentes aéreos comerciais receberem enorme atenção quando acontecem, viajar de avião é estatisticamente muito mais seguro do que dirigir. Um novo relatório da Embry-Riddle Aeronautical University comparou diferentes formas de transporte nos Estados Unidos e estimou que, para a mesma distância percorrida, o risco de morrer em um carro ou caminhão é cerca de 626 vezes maior do que em um voo comercial.

Muitas pessoas consideram o carro uma opção mais segura por ser familiar e por permitir que o próprio motorista tenha algum controle sobre a viagem. No avião, o passageiro depende de pilotos, sistemas automáticos, controle de tráfego e uma estrutura que acontece longe de suas mãos.

Aviação comercial apresenta risco extremamente baixo

O estudo analisou dados de 2016 a 2025 referentes às companhias aéreas comerciais americanas que operam sob a regulamentação Part 121. Os pesquisadores compararam a mortalidade da aviação com a de outros meios de transporte, atividades recreativas e riscos ocupacionais.

Em diferentes formas de medir a exposição ao risco, a aviação comercial apareceu entre as atividades mais seguras. Considerando a distância percorrida, o risco de fatalidade em carros e caminhões foi estimado em 626 vezes o registrado na aviação comercial.

A diferença aumenta quando a comparação envolve motocicletas: o risco associado a esse meio de transporte foi mais de 22 mil vezes maior que o da aviação comercial para a mesma distância. Nos ônibus rodoviários, considerados relativamente seguros, o risco foi aproximadamente nove vezes maior.

Outra maneira de observar os números é pelo número de embarques. Entre 2016 e 2024, os pesquisadores estimaram aproximadamente uma fatalidade para cada 97,7 milhões de embarques em companhias aéreas comerciais americanas.

Durante os dez anos analisados, foram registradas 73 mortes relacionadas a acidentes envolvendo viagens aéreas comerciais nos Estados Unidos.

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Um acidente raro pode parecer mais perigoso

Um acidente aéreo comercial costuma ser raro, grave e altamente visível. Quando acontece, imagens da tragédia são repetidas durante horas ou dias, enquanto histórias de passageiros e familiares ganham ampla exposição.

Acidentes de trânsito têm uma dinâmica diferente. Embora provoquem muito mais mortes, estão distribuídos entre milhares de ocorrências e raramente são percebidos pelo público como parte de um único grande evento.

Essa diferença interfere na maneira como as pessoas avaliam o perigo. Um desastre que mata dezenas ou centenas de pessoas de uma só vez pode parecer mais ameaçador do que milhares de acidentes menores espalhados ao longo do tempo.

Sensação de controle acaba influenciando a escolha

Ao dirigir, uma pessoa segura o volante, controla a velocidade e pode decidir quando frear ou parar. Essa sensação de autonomia pode fazer com que a viagem pareça menos arriscada.

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No avião ocorre o contrário: o passageiro não controla praticamente nenhuma etapa da operação e precisa confiar em pilotos, equipamentos, procedimentos de segurança, controladores de tráfego e na companhia aérea.

Pesquisas sobre percepção de risco indicam que essa sensação de controle pode influenciar o comportamento. Sentir que temos controle sobre uma situação, porém, não significa necessariamente que ela seja mais segura.

Evitar o avião não significa eliminar o risco

A principal conclusão é que nenhum meio de transporte é isento de risco. A questão abordada pelos pesquisadores é que acidentes aéreos comerciais são tão raros nos Estados Unidos que é necessário analisar muitos anos de dados e uma quantidade enorme de viagens para conseguir estimar sua probabilidade.

O medo provocado por um acidente pode ser real, mas a percepção individual não necessariamente corresponde à probabilidade estatística. Para quem precisa escolher entre carro e avião em uma viagem de longa distância, os dados indicam que a alternativa que parece mais controlável não é necessariamente a que apresenta menor risco.

Imagens: Shutterstock

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