Existem aproximadamente 31 mil cabeças de gado da raça Rubia Gallega registradas no livro genealógico, quase metade do número de uma década atrás: em 2013, a cifra era de cerca de 66 mil. O fato é que a rainha das raças bovinas galegas está diminuindo, enquanto sua fama se espalha para além de suas fronteiras.
É uma contradição clássica: quanto maior a demanda no exterior, menos animais permanecem na Espanha. Alberto Hermida, presidente da Associação de Criadores de Gado Rubia Gallega do país, resume a situação assim: "Para encontrar um animal de tamanha excelência, é preciso ver centenas". Em outras palavras: encontrar uma vaca de raça pura hoje em dia é uma questão de sorte estatística.
Manual do Veterinário
O que torna uma Rubia "autêntica"? Começa pela pelagem: loira, castanha ou cor de canela, com pele e mucosas sem pigmentação, de acordo com o padrão oficial da raça. Continua com a anatomia: chifres em posição característica, dorso reto, garupa convexa e úbere bem formado. E tudo se resume à funcionalidade, dizem: a capacidade de amamentar sem auxílio e a facilidade no parto.
Os agricultores relatam até 90% de partos sem complicações em animais de raça pura, em comparação com apenas 60% em animais mestiços. De acordo com os registros oficiais, a origem da raça remonta a 500 a.C.
Durante séculos, ela puxou o arado, forneceu leite e produziu carne: três funções em um único animal, até que a mecanização da agricultura entre as décadas de 1960 e 1980 a aposentou da aragem. Mas isso não importa: cercados por dados, ávidos por informações, os especialistas conseguem identificá-la instantaneamente.
Um retrato da população
O colapso coincide com a completa reorganização da zona rural da Galícia: as fazendas com mais de 200 cabeças de gado quintuplicaram em duas décadas, enquanto as com menos de 50 animais caíram de 10 mil para menos de 1.900.
O pequeno produtor rural tradicional, aquele com cinco ou dez vacas, cada uma com seu próprio nome, é tão raro quanto o próprio gado de raça pura. Entre 2013 e 2022, a raça Rubia Gallega perdeu 52% de seus animais registrados e 42% de suas fazendas, segundo dados da ARCA, o registro estatal de raças de gado.
Por que ela é cruzada?
Por razões puramente econômicas. A introdução de genes de South Devon, Limousin, Charolês ou Blonde d'Aquitaine adiciona peso, e mais peso significa mais dinheiro por quilo. O problema: esses cruzamentos diluem justamente o que torna a raça especial: a facilidade de parto e o leite materno. O produtor otimiza o curto prazo e corrói o valor da marca a longo prazo.
Há uma década, a raça bovina Rubia Gallega contava com 37.850 cabeças registradas no Livro Genealógico da ACRUGA (34.634 fêmeas e 3.216 machos, em 1.876 fazendas), após uma queda acentuada de 66.162 animais em 2013 devido a uma limpeza no próprio registro. A raça também é cruzada por funcionar como um reprodutor ideal para o melhoramento genético de vacas leiteiras da raça Frísia.
Além de parir sozinha em 85% dos casos e apresentar a maior taxa de fertilidade entre as raças de corte (taxa de não retorno após inseminação de 57,1%), o cruzamento acrescenta até 18% mais carne ao bezerro.
(Se)mente e corpo
2025 fechou com preços recordes para a carne bovina galega, acima de 8 euros (cerca de R$ 47) por quilo de carcaça. A Indicação Geográfica Protegida (IGP) da Vitela Gallega gerou aproximadamente € 173 milhões em receita de primeira venda, apesar de certificar menos carcaças do que em 2014: 89.718 contra 104.655. Essa escassez também custou à empresa mais de 200 pontos de venda em toda a Espanha.
O negócio que realmente ultrapassa fronteiras não é a carne, mas o sêmen: mais de 300 mil doses são vendidas anualmente, com aproximadamente 120 mil permanecendo na Espanha e o restante viajando para o Brasil (onde é cruzado com gado zebu), Uruguai, Polônia, Portugal, Turquia, México e até Indonésia e Nicarágua. As exportações diretas de carne, por outro lado, mal chegam a 4% do total de vendas.
Um caso de engano
Suponha que você tenha duas vacas e vá registrá-las: nenhuma certificação exige a especificação da raça exata de uma vaca adulta no matadouro, além do Documento de Identificação Bovina (DIN). Este DIN nunca chega ao balcão.
A Indicação Geográfica Protegida (IGP) para a carne bovina galega maturada, Vaca Gallega-Buey Gallego, abrange nada menos que onze raças e seus cruzamentos: a Rubia Gallega e as cinco raças "Marrons Gallegas" (Asturiana, Limousin, Loira da Aquitânia, Frísia e Pardo-Suíça).
Comprar "carne bovina galega" não garante comprar Rubia Gallega, pura ou mestiça. Tanto os chefs de restaurantes quanto os grandes distribuidores sabem disso.
A histeria da mídia
O que inflou a demanda? Além da óbvia imagem de "carne de qualidade superior" e do selo de autenticidade, podemos falar de celebridades. Henry Cavill visitou fazendas em La Coruña e Lugo para levar amostras para sua propriedade nos arredores de Londres.
Gordon James Ramsay, chef com 17 estrelas Michelin ao longo de sua carreira, declarou que essa carne supera a Wagyu e a Angus. Eva Longoria, durante as filmagens de seu programa "Em Busca da Espanha" para a CNN, declarou: "É a melhor carne que já comi, de longe". E ela foi criada em um rancho no Texas, cercada por gado e criadores experientes.
O resgate
Diante desse coquetel de escassez e demanda, a Agacal e a Xenética Fontao estão trabalhando em um projeto de resgate genético: coletaram amostras de vacas com características maternas tradicionais para multiplicar seu material genético e devolvê-lo aos produtores. O banco de germoplasma da raça está agora completo.
O objetivo é claro e não é interromper o cruzamento: garantir que aqueles que procuram o gado tradicional de Rubia Gallega possam continuar a encontrá-lo, mesmo que, por enquanto, seja apenas um entre muitos.
Imagem de capa | cedida pela Asociación Nacional de Criadores de Ganado Vacuno Selecto de Raza Rubia Gallega (Acruga).
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