Ciência comprova: além de tirar a fome, Ozempic muda os hábitos de compra no supermercado

A explicação não está apenas na força de vontade

Ozempic / Imagem: Haberdoedas, Ishaq Robin
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

1611 publicaciones de Victor Bianchin

Um novo estudo realizado na Dinamarca e publicado no periódico JAMA Network Open observou algo que os analistas de mercado já vinham intuindo há algum tempo: medicamentos como Ozempic e Wegovy não apenas reduzem o apetite, mas também modificam estruturalmente o que compramos, quanto gastamos e quais seções do supermercado frequentamos.

Até agora, grande parte do que sabíamos sobre a dieta dos usuários de GLP-1 vinha do que eles mesmos relatavam em pesquisas. O problema é que, às vezes, os humanos mentem ou até nossa memória falha ao lembrar o que realmente se come no dia a dia.

Para evitar esse viés, uma equipe liderada por Kathrine Kold Sørensen, do Hospital Universitário de Copenhague, decidiu ir à fonte de verdade mais objetiva: os recibos de compra.

O estudo analisou mais de 2 milhões de transações de 1.177 participantes dinamarqueses. Ao comparar os recibos de antes e depois de iniciar o tratamento (entre 2019 e 2022), os pesquisadores detectaram uma mudança clara de padrão. O mais destacado, sem dúvida, foi a redução na compra de ultraprocessados, que caiu de 39,2% para 38%. E, embora possa parecer pouco, no grupo de controle sem o fármaco, o consumo estava em alta.

A redução dos ultraprocessados fez com que a cesta se enchesse de comida de verdade, porcentagem que aumentou de 46,9% para 47,8%. Isso se combinou com a compra de menos calorias a cada 100 gramas, ao reduzir o açúcar, as gorduras saturadas e os carboidratos. Por outro lado, as proteínas começaram a aumentar.

Um golpe no bolso

Se o estudo dinamarquês se concentra na qualidade nutricional, outros relatórios recentes colocam o foco no impacto econômico. Um estudo da Universidade de Cornell, publicado em dezembro de 2025 e baseado em dados da Numerator, revela que o impacto nos gastos é imediato. Nos EUA, em específico, os lares com pacientes tomando Ozempic reduziram o gasto em supermercados em aproximadamente 5,5%.

Se destrincharmos essa redução, o gasto com snacks salgados, doces, produtos de confeitaria industrial e biscoitos despencou entre 10% e 11%. Por outro lado, registrou-se um leve aumento na compra de iogurtes, frutas frescas e barras de proteína.

A explicação não está apenas na força de vontade. Especialistas espanhóis como Cristóbal Morales e Joana Nicolau, citados pelo Science Media Centre Espanha, explicam que o mecanismo é fisiológico, já que os fármacos atuam sobre o sistema de recompensa do cérebro.

Em estudos pré-clínicos com animais, já se mostrava que, sob os efeitos do GLP-1, os ratos perdiam suas preferências habituais por alimentos ricos em gorduras e açúcares. Isso, em humanos, se traduz no fato de que o impulso de comprar aquele pacote de batatas ou aquele refrigerante simplesmente desaparece ou se atenua de forma drástica.

Mas nem tudo são boas notícias em relação a esses fármacos, já que, como já foi repetido em diferentes ocasiões, quando o tratamento é interrompido, os padrões de compra revertem parcialmente para os anteriores. Por isso, a mudança de hábito parece estar atrelada à duração do tratamento farmacológico.

Além disso, o estudo tem limitações inerentes ao desenho observacional, já que não comprova causalidade direta e existe um possível “viés de seleção”. Afinal, as pessoas dispostas a compartilhar seus recibos de compra e a iniciar esses tratamentos costumam estar mais motivadas com a saúde desde o início ou receber acompanhamento nutricional paralelo.

Imagens | Haberdoedas, Ishaq Robin

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio