Cientistas brasileiros descobrem vidro cósmico criado por um impacto no Brasil há 6 milhões de anos

Pequenos fragmentos de vidro foram encontrados no território brasileiro e confirmam a colisão de um meteorito no passado 

Vidro tectito. Créditos: Instagram/ @alvarocrosta
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Há aproximadamente 6,3 milhões de anos atrás, muito antes de existir o território que hoje chamamos de Brasil, um meteorito atingiu a superfície do planeta com força suficiente para derreter rochas e lançar material incandescente à atmosfera. Esse material esfriou rapidamente e se transformou em vidro natural. Porém, só agora, em dezembro de 2025, pesquisadores brasileiros confirmaram pela primeira vez que vestígios desse evento cósmico estão preservados no país.

A descoberta envolve um tipo raro de vidro conhecido como tectito, identificado em áreas dos estados de Minas Gerais, Bahia e Piauí. O estudo, publicado na revista científica Geology, contou com cientistas da Unicamp, da USP e de instituições internacionais. Além de revelar um capítulo desconhecido da história geológica do país, a descoberta levanta uma pergunta que ainda desafia os pesquisadores: onde está a cratera deixada por esse impacto?

Tectitos: saiba mais sobre o vidro cósmico que cabe na palma da mão

Muito antes de qualquer registro humano no território brasileiro, a colisão de um meteorito com a Terra lançou material incandescente à atmosfera e espalhou fragmentos por centenas de quilômetros. Esses vestígios, no entanto, ficaram durante muitos anos invisíveis, até serem finalmente identificados pela ciência

Os fragmentos encontrados poderiam ser confundidos facilmente com vidro vulcânico, como a obsidiana. Pequenos, escuros e aparentemente opacos, eles cabem na palma da mão. Mas quando observados contra uma fonte intensa de luz, revelam uma coloração verde acinzentada e translúcida, típica de materiais formados sob condições extremas.

Esses fragmentos são os tectitos, vidros naturais que surgem quando um corpo extraterrestre colide com a Terra e libera energia suficiente para derreter rochas ricas em sílica. O material derretido é lançado para a atmosfera, onde esfria rapidamente e solidifica ainda em voo, adquirindo formatos aerodinâmicos, como o de gotas, bastões e estruturas torcidas.

No Brasil, essas estruturas receberam o nome de geraisitos, em homenagem às regiões do norte de Minas Gerais, onde os primeiros exemplares foram identificados. Até agora, mais de 600 fragmentos foram catalogados, distribuídos por uma área de aproximadamente 900 quilômetros, o que indica um evento de impacto de grande magnitude.

Análises de alta precisão revelam idade, composição e descartam origem vulcânica

Para confirmar a origem dos geraisitos, as amostras passaram por uma bateria de exames em laboratórios de 4 países diferentes: Brasil, França, Áustria e Austrália. As análises incluíram microanálises químicas, datação isotópica e espectroscopia no infravermelho, técnicas que permitem revelar a composição e a história térmica do material.

Os resultados mostraram que os fragmentos são ricos em sílica, apresentam baixíssimo teor de água e contêm inclusões de lechatelierita, um tipo de vidro quase puro de sílica associado a impactos meteoríticos. Com base nesses dados, os pesquisadores puderam descartar definitivamente a hipótese de origem vulcânica.

A datação por isótopos de argônio indicou que o evento ocorreu há cerca de 6,3 milhões de anos, período em que grandes transformações climáticas e ambientais já estavam em curso no planeta. Com isso, o Brasil passa a integrar um grupo restrito de regiões do mundo onde campos de tectitos foram confirmados, ao lado de áreas como a Australásia, a Europa Central e a América do Norte.

Um campo de tectitos gigante e a busca pela cratera que ainda não apareceu

Com base no que se sabe sobre a origem do vidro cósmico, não dá para negar: se há tectitos, houve impacto, e se houve impacto, deveria haver uma cratera. O problema é que até agora ela não foi encontrada. As pistas deixadas pelos geraisitos indicam que o meteorito atingiu uma área associada ao cráton do São Francisco, uma das regiões geologicamente mais antigas e estáveis da América do Sul, que abrange partes de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco e Goiás.

Segundo os pesquisadores, a cratera pode ter sido erodida, recoberta por sedimentos ou simplesmente ainda não ter sido identificada. O tamanho do campo de tectitos, no entanto, sugere que o impacto foi expressivo. Para comparação, um evento ocorrido na Alemanha, com uma cratera de 25 quilômetros de diâmetro, gerou um campo de tectitos menor do que o brasileiro.


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