Arma inteligente da China contra o diabetes: o novo probiótico que age de forma semelhante ao Ozempic e promete chegar aos EUA em até dois anos

Bactéria geneticamente modificada detecta o aumento da glicose e libera hormônio de forma automática

Imagem produzida por IA
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

874 publicaciones de Laura Vieira

Os chineses estão revolucionando a medicina com tecnologias cada vez mais modernas e evoluídas. É o caso do implante cerebral desenvolvido na China  para reverter a tetraplegia e, agora, uma espécie de “probiótico inteligente” desenvolvido para ajudar no controle do diabetes. Criado por pesquisadores da Universidade Normal do Leste da China, em Xangai, o sistema foi desenvolvido para agir de maneira automática, ativando uma resposta quando os níveis de açúcar no sangue aumentam

Batizado de GIFT, o probiótico apresentou resultados semelhantes aos do Ozempic em testes realizados com animais. A equipe já solicitou uma patente e pretende levar a tecnologia aos mercados dos Estados Unidos e da Europa, com a expectativa de disponibilizá-la nos EUA como suplemento alimentar em cerca de dois anos, caso todas as etapas de desenvolvimento sejam bem-sucedidas. O estudo foi publicado na revista científica Nature.

GIFT transforma uma bactéria em um sistema que detecta a glicose

O GIFT é um probiótico geneticamente modificado que consegue detectar alterações na glicose e liberar um hormônio para ajudar a controlá-la. Ou seja, ele funciona de uma forma diferente, sem horários e doses previamente determinados. Os pesquisadores modificaram geneticamente uma bactéria para que ela consiga perceber quando a glicose aumenta e responder liberando uma substância que ajuda no controle da glicemia.

A base escolhida foi a Escherichia coli Nissle 1917, uma cepa utilizada como probiótico e considerada segura para humanos. Os cientistas adicionaram à bactéria dois componentes principais: um sistema responsável por detectar a glicose e um gene capaz de produzir GLP-1, hormônio relacionado à secreção de insulina e à regulação dos níveis de açúcar no sangue. 

Funciona assim: o sensor utiliza a proteína HexR, derivada da Pseudomonas putida, para identificar alterações na concentração de glicose no organismo. Quando a concentração de glicose está dentro dos níveis normais, o mecanismo permanece inativo. Quando ocorre uma elevação, a proteína muda de estado e ativa o gene responsável pela produção de GLP-1.

O objetivo é fazer com que o próprio organismo funcione como um sinal para ligar ou desligar a produção do hormônio. Assim, quando ingerida por via oral, a bactéria poderia permanecer temporariamente no intestino e responder às alterações relacionadas à glicose.

Testes com animais mostraram resultados próximos aos do Ozempic

ozempic O GIFT foi comparado ao Ozempic em testes com animais e apresentou efeito semelhante na redução dos níveis de glicose.

Antes de pensar em colocar o GIFT nas prateleiras, os pesquisadores precisaram avaliar se o sistema realmente funcionava. Os testes foram realizados em camundongos e primatas não humanos, e os resultados indicaram melhora em diferentes indicadores relacionados ao controle da glicose.

Em camundongos com diabetes tipo 2, uma única dose oral fez os níveis de GLP-1 atingirem o pico entre duas e quatro horas depois, acompanhada por uma redução significativa da glicemia. Após 30 dias de administração diária, os animais apresentaram melhora na glicemia em jejum, na tolerância à glicose e à insulina. O uso prolongado também foi associado a melhorias em problemas relacionados à diabetes nos animais, incluindo esteatose hepática, lesões renais e inflamação do cólon.

Nos primatas, uma única dose provocou aumento rápido dos níveis de GLP-1 e de insulina, enquanto o efeito de redução da glicose chegou a durar até três dias. Durante cinco semanas de acompanhamento, os níveis de açúcar no sangue permaneceram relativamente estáveis nos animais testados.

Para entender melhor o potencial da tecnologia, os pesquisadores compararam o GIFT com o Ozempic, um medicamento à base de semaglutida que atua sobre a mesma via relacionada ao GLP-1 e se popularizou para o tratamento de diabetes e controle de peso. Nos modelos animais avaliados, o efeito de redução da glicose produzido pelo probiótico foi comparável ao observado com o medicamento.

Isso, porém, não significa que o GIFT é uma alternativa ao Ozempic para pessoas com diabetes. Os resultados foram obtidos em animais, e a tecnologia ainda precisa passar por outras etapas de avaliação, incluindo testes de segurança, dosagem, eficácia e controle da atividade das bactérias geneticamente modificadas.

Probiótico ainda precisa superar etapas antes de chegar aos Estados Unidos

Apesar dos resultados iniciais, o GIFT ainda está longe de ser um tratamento disponível para pacientes. A equipe do estudo já solicitou uma patente e trabalha na melhoria da segurança e na produção da bactéria de acordo com padrões de fabricação farmacêutica. A expectativa anunciada pelo pesquisador é que o produto possa chegar aos Estados Unidos em dois anos, se todas as etapas avançarem conforme o planejado. 

O projeto também pode ter aplicações além do controle da glicose. Como o sistema foi construído de maneira modular, os pesquisadores afirmam que o componente responsável por detectar um sinal biológico e aquele responsável por produzir a resposta terapêutica podem, em princípio, ser substituídos. Com isso, a proposta é transformar o GIFT em uma plataforma para futuros “medicamentos vivos” programáveis, que conseguem reconhecer alterações específicas no organismo e liberar diferentes substâncias de acordo com elas. 

Inicio