O cérebro encontra um novo caminho: China aprova o primeiro implante cerebral comercial do mundo para reverter a tetraplegia

O dispositivo capta as intenções de movimento diretamente do cérebro e usa inteligência artificial para transformá-las em ações

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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O NEO, implante cerebral desenvolvido na China, recebeu autorização para uso clínico em pessoas com tetraplegia causada por lesão medular cervical. O dispositivo capta sinais do córtex motor e, com ajuda de inteligência artificial e reabilitação, conseguiu fazer um paciente voltar a escrever o próprio nome após seis anos de paralisia. 

Desenvolvido pela empresa Neuracle Technology em parceria com pesquisadores da Universidade de Tsinghua, o sistema representa uma mudança importante no desenvolvimento das interfaces cérebro-computador. Pela primeira vez, uma tecnologia desse tipo deixa o ambiente experimental e passa a ser autorizada como dispositivo médico comercial.

Implante transforma sinais do cérebro em comandos para recuperar movimentos

Uma lesão na medula espinhal pode interromper a comunicação entre o cérebro e os músculos sem impedir que o cérebro continue produzindo os comandos necessários para movimentá-los. O dispositivo vai atuar exatamente nessa brecha que entram as interfaces cérebro-computador, conhecidas pela sigla BCI. Ao invés de depender da passagem do sinal pela região lesionada da medula, o sistema registra diretamente a atividade cerebral e tenta descobrir o que a pessoa pretendia fazer. Algoritmos de inteligência artificial interpretam esses padrões e os transformam em comandos que podem controlar equipamentos externos.

O NEO segue esse princípio, mas utiliza uma abordagem diferente de alguns dos implantes mais conhecidos. O dispositivo registra a atividade do córtex motor a partir da superfície da dura-máter, membrana que reveste e protege o cérebro, sem precisar penetrar diretamente no tecido cerebral. Ainda assim, a implantação exige uma cirurgia, que dura aproximadamente uma hora e meia. A posição do dispositivo busca reduzir alguns dos riscos associados a eletrodos que penetram no tecido cerebral, como hemorragias e alterações provocadas pela cicatrização.

Foi com essa tecnologia que Dong Hui, de 39 anos, conseguiu recuperar parte dos movimentos das mãos. O paciente ficou tetraplégico após um acidente, seis anos antes do procedimento, e passou a não conseguir realizar tarefas simples, como segurar uma caneta. Depois da cirurgia e de 11 meses de reabilitação, os sinais captados pelo implante foram utilizados para controlar uma luva robótica durante o treinamento. Em determinado momento, ele conseguiu escrever o próprio nome e depois acrescentou uma palavra: “Obrigado”. Apesar do sucesso, é importante lembrar que o resultado não significa que a lesão medular tenha sido curada. 

Implante cerebral chinês chega aos hospitais após anos de pesquisas 

O caso de Dong Hui é surpreendente pelo estágio em que essa tecnologia chegou. O órgão regulador chinês autorizou o NEO para uso em pessoas com tetraplegia provocada por lesões na região cervical da medula, desde que elas atendam aos critérios clínicos estabelecidos. Essa autorização coloca o dispositivo em uma posição diferente da de muitos projetos de interfaces cérebro-computador que ainda estão restritos a pesquisas e testes clínicos. A tecnologia passa a seguir o caminho de outros dispositivos médicos que, depois de anos de desenvolvimento, chegaram ao atendimento de pacientes.

O sistema também combina o implante com uma estratégia de reabilitação. Durante o treinamento, os sinais produzidos quando o paciente tenta movimentar a mão são interpretados pela inteligência artificial e utilizados para controlar a luva robótica. A proposta é aproveitar tanto os comandos produzidos pelo cérebro quanto os sinais sensoriais que continuam chegando da mão para estimular a capacidade do sistema nervoso de se reorganizar.

Esse conceito, chamado de bridging neural repair, é uma das principais características do NEO. Ao invés de usar um equipamento para compensar um movimento perdido, a tecnologia busca ajudar o cérebro e o sistema nervoso a trabalharem novamente de forma coordenada. A autorização também mostra a importância que as interfaces cérebro-computador ganharam dentro da estratégia tecnológica chinesa. 

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