Achávamos que a alimentação ditava as regras do diabetes, até a ciência descobrir o escudo invisível de quem vive em altas altitudes

Pesquisa revela que, em ambientes com pouco oxigênio, hemácias passam a capturar mais glicose, um mecanismo que pode abrir caminho para novas abordagens contra o diabetes

Pessoa medindo a glicose. Créditos:shutterstock
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

503 publicaciones de Laura Vieira

A diabetes é uma doença crônica caracterizada pelo excesso de glicose no sangue, um desequilíbrio que pode danificar vasos sanguíneos, órgãos e nervos ao longo do tempo. E se você pensa que essa é uma condição rara, está enganado. Dados de 2025 da International Diabetes Federation mostram que 11,1% da população adulta entre 20 e 79 anos vive com a doença, o equivalente a 1 em cada 9 pessoas no mundo. Mais alarmante ainda: mais de 40% sequer sabem que têm o problema.

Durante muitos anos, alimentação, peso corporal e predisposição genética foram apontados como os principais fatores por trás da diabetes. Agora, porém, um estudo publicado na revista Cell Metabolism sugere que o ambiente também pode desempenhar um papel inesperado. A pesquisa, conduzida por cientistas do Gladstone Institutes, indica que pessoas que vivem em grandes altitudes parecem ter uma espécie de “escudo biológico” que protege contra a diabetes. Eles descobriram que em condições de pouco oxigênio, os glóbulos vermelhos passam a captar mais glicose da corrente sanguínea, reduzindo a glicemia de forma significativa.

O mistério biológico: por que a glicose cai quando o oxigênio diminui?

Não é nenhuma novidade que moradores de regiões montanhosas apresentam taxas menores de diabetes. A ciência já sabia disso, mas não conseguia explicar o motivo. Pesquisadores acreditavam que essa proteção estivesse ligada a alterações na produção ou na sensibilidade à insulina, já que esse hormônio é responsável por permitir que músculos e tecido adiposo absorvam glicose. Porém, eles perceberam que isso não fechava a conta.

Em um estudo publicado na revista Cell Metabolism, pesquisadores observaram um fenômeno intrigante em camundongos expostos à hipóxia, condição de baixo nível de oxigênio semelhante à vivida por quem mora em grandes altitudes. Em experimentos com esses animais, a glicose simplesmente desaparecia da corrente sanguínea após as refeições, algo que não era explicado pelos principais órgãos metabolicamente ativos, como fígado, músculos ou tecido adiposo. 

Os exames detalhados indicaram que esse sumiço rápido do açúcar no sangue não podia ser atribuído ao mecanismo tradicional ligado à insulina. Faltava uma peça no quebra-cabeça, e foi isso que motivou uma nova linha de investigação liderada pela equipe do Gladstone Institutes. Eles passaram a investigar como baixos níveis de oxigênio alteram o metabolismo da glicose, abrindo caminho para uma nova explicação para o fenômeno.

Estudo revela que hemácias assumem papel central no controle da glicose sob baixa oxigenação

Os glóbulos vermelhos, também chamados de hemácias, sempre foram vistos como simples transportadores de oxigênio. Não têm núcleo, não possuem mitocôndrias e, até pouco tempo atrás, eram considerados metabolicamente limitados. Mas em altitudes elevadas acontece algo diferente com eles, e isso tem tudo a ver com a proteção contra a diabetes. 

Acontece que, nas alturas, o corpo produz mais hemácias e, surpreendentemente, cada uma delas passa a absorver mais glicose. É como se milhões de pequenas esponjas começassem a sugar açúcar da circulação. Com isso, essa glicose é rapidamente convertida em uma molécula chamada 2,3-DPG, que ajuda a hemoglobina a liberar oxigênio com mais eficiência para os tecidos, algo essencial quando o ar é rarefeito. Ou seja, é uma estratégia do próprio corpo para garantir que o oxigênio chegue com mais eficiência às células mesmo quando há pouco oxigênio disponível no ambiente.

Adaptação equilibra oxigênio e glicose no sangue ao mesmo tempo

Mulher sentada na varanda observando a vista montanhosa. Em grandes altitudes, o corpo ativa mecanismos que ajudam a liberar mais oxigênio aos tecidos e, de quebra, reduzem os níveis de glicose no sangue. Créditos: Shutterstock

Se nas grandes altitudes as hemácias passam a agir como pequenas esponjas de glicose, a pergunta seguinte era inevitável: essa mudança acontece apenas no funcionamento das células já existentes ou o próprio organismo passa a produzi-las de forma diferente? Os cientistas descobriram que as hemácias produzidas sob hipóxia já “nascem” programadas para captar mais glicose, exibindo maior quantidade do transportador GLUT1 em sua membrana. Ou seja, a medula óssea também responde ao ambiente e passa a fabricar uma nova geração de células com maior capacidade de captar glicose. 

Medicamento experimental tenta reproduzir, em laboratório, os efeitos metabólicos de viver em grandes altitudes

Se viver nas montanhas “protege” contra o diabetes, seria possível reproduzir esse efeito em laboratório? A equipe decidiu buscar essa resposta e testou um medicamento experimental chamado HypoxyStat, desenvolvido pelos próprios pesquisadores. A substância aumenta a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, simulando no organismo os efeitos de um ambiente com baixa disponibilidade de oxigênio.

O resultado surpreendeu os pesquisadores: em modelos de camundongos com diabetes tipo 1 e tipo 2, a glicemia foi revertida de forma completa, com desempenho superior ao de tratamentos convencionais. A proposta de usar os glóbulos vermelhos como “reservatórios de glicose” altera a lógica tradicional do tratamento, que sempre esteve focada na insulina, no fígado ou nos músculos. Aqui, o que muda é que o alvo é outro: o próprio sangue.


Inicio