Se há uma família de medicamentos que tem dominado as manchetes nos últimos anos, são os agonistas do receptor GLP-1, mais conhecidos por nomes como “Ozempic” e “Wegovy”. Esses fármacos começaram revolucionando o tratamento do diabetes tipo 2, mas também acabaram sendo uma forma muito eficaz de tratar a obesidade. Pouco depois, porém, os cientistas começaram a notar algo fascinante ao observar que os pacientes diziam que também perdiam a vontade de beber álcool, fumar e roer as unhas.
Um novo estudo levou esses primeiros indícios de supressão de impulsos um passo além, entrando no campo da criminologia, e observou que o consumo desses agonistas pode ajudar a reduzir o impulso por atos violentos.
Para chegar a esse ponto, os pesquisadores analisaram, por meio de uma pesquisa, 821 adultos que haviam utilizado medicamentos GLP-1 em algum momento. Em seguida, o estudo analisou separadamente os usuários atuais desses medicamentos e os ex-usuários para verificar exatamente o efeito que o medicamento pode ter em aspectos que vão além do consumo de alimentos.
Os resultados
Descobriu-se que, nos usuários atuais de Ozempic, a associação entre traços de impulsividade ou consumo de álcool e comportamento violento era significativamente mais fraca.
Ou seja, o medicamento parece atuar como um amortecedor, já que a pessoa consome menos álcool e, por consequência, fica menos propensa a atos de agressão. É fato conhecido que a alta impulsividade somada ao consumo de álcool costuma ser um combo que facilita comportamentos agressivos. Mas, nos pacientes em tratamento com Ozempic, essa transição entre “sentir o impulso” e “executar a ação violenta” parece ser atenuada, o que pode evitar a passagem para a prática de um crime doloso.
Para entender por que um medicamento metabólico pode ter efeitos comportamentais, é preciso olhar para o cérebro, já que os agonistas de GLP-1 atuam em áreas cerebrais envolvidas no sistema de recompensa e na regulação do apetite.
O contexto clínico desse fenômeno está cada vez mais documentado, pois um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado na JAMA Psychiatry demonstrou que a semaglutida reduziu a compulsão por consumo e várias métricas de ingestão em adultos com transtorno por uso de álcool. Esse ensaio clínico tem um peso causal muito maior do que o estudo criminológico e fornece uma base clínica sólida ao indicar que os GLP-1 modulam nossa relação com substâncias e com a gratificação imediata.
Com esse tipo de estudo, é fácil cair no sensacionalismo e pensar que estamos diante da pílula de “Laranja Mecânica”. No entanto, é preciso destacar que a pesquisa tem caráter observacional e transversal. Isso significa que foi feita uma espécie de “foto estática” da situação, sem acompanhamento dos participantes para ver como sua impulsividade evolui ao longo do tempo.
Imagens | David Trinks (Unsplash)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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