Oito horas por dia, cinco ou seis vezes na semana: essa é a jornada de trabalho padrão no Brasil. Para milhões de pessoas, porém, ela ainda se estende em horas extras não remuneradas e até mensagens fora do expediente. Na Noruega, no entanto, o cenário é completamente diferente. A média semanal é de 33,6 horas, e sair do escritório às 15h ou 16h é uma realidade comum. Ainda assim, mesmo tendo a menor jornada do mundo, o país começou a testar a semana de quatro dias. O motivo não é falta de produtividade, mas um aviso sobre saúde mental e sustentabilidade do trabalho.
Mesmo com jornada reduzida, Noruega enfrenta alta nas licenças por estresse
A Noruega é referência global em equilíbrio entre vida pessoal e profissional. A legislação limita a jornada de trabalho a 40 horas por semana, mas a prática fica bem abaixo disso. Todo trabalhador em tempo integral tem direito a 25 dias de férias, licença parental generosa (49 semanas com salário integral ou 59 com 80%) e creche acessível.
A Noruega também se destaca por estar no topo dos rankings de felicidade e expectativa de vida. Mesmo assim, o país está lidando com o aumento das licenças médicas, especialmente por estresse e transtornos mentais. Para se ter uma ideia, em 2024, a Noruega foi apontada como um dos países que registram maior índice de afastamentos por licença médica no mundo.
Com menos horas e dias de trabalho, a realidade não deveria ser diferente? Na teoria, sim, mas não é o que os dados mostram. O problema não está na quantidade de horas, e sim na intensidade: a digitalização manteve profissionais permanentemente conectados, apagou os limites entre trabalho e descanso e, somada à pressão por desempenho e à cultura de alta responsabilidade individual, deixou a mente em estado de alerta quase constante. O resultado é um avanço do burnout em um dos países com a menor jornada do mundo. A grande questão, portanto, não é sobre “trabalhar menos”, mas sobre trabalhar de forma inteligente.
Entenda como funciona a “engenharia” da semana de 4 dias
Diante desse cenário de alta intensidade e desgaste mental, algumas empresas norueguesas passaram a testar uma solução que pode parecer contraditória: reduzir ainda mais o tempo de trabalho. É nesse contexto que ganha força o movimento 4 Day Week Norway, uma iniciativa que promove a implementação da semana de trabalho de quatro dias na Noruega, que já inspirou centenas de empresas a experimentar jornadas mais curtas sem cortar salários. A proposta parte do princípio 100-80-100: 100% do salário, 80% do tempo de trabalho e 100% da produtividade.
No entanto, não se trata apenas de eliminar um dia do calendário. As empresas que aderem ao teste precisam redesenhar a rotina com regras e mudanças estruturais na forma de trabalhar. Veja, a seguir, algumas dessas medidas:
- Bloqueio de tempo para tarefas específicas;
- Períodos de foco sem interrupções;
- Redução drástica de reuniões (e só com pauta definida);
- Comunicação mais objetiva;
- Expectativas transparentes sobre disponibilidade.
Reduzir um dia não resolve tudo: entenda quais são os obstáculos do modelo norueguês
A proposta norueguesa de encurtar a semana de trabalho parece simples no papel, mas, na prática, não é exatamente assim que funciona. Isso porque, ao concentrar a mesma produtividade em menos tempo, a semana de quatro dias exige uma reorganização completa da rotina de trabalho. Afinal, para liberar a sexta-feira, os quatro dias restantes devem se tornar mais intensos. Com isso, a pressão por eficiência cresce, e a margem para erro diminui.
Além disso, nem todos os setores conseguem aderir esse modelo com facilidade. Serviços essenciais, como saúde, transporte e atendimento presencial, enfrentam desafios logísticos. Por isso, acredita-se que jornadas mais curtas beneficiem principalmente trabalhadores de escritório, criando uma divisão entre quem pode e quem não pode reduzir o expediente.
No Brasil, onde a discussão ainda gira em torno da redução da escala 6x1 e no combate a jornadas exaustivas, a semana de quatro dias parece uma utopia bem distante. Mas a realidade vivida na Noruega traz questionamento em relação à jornada de trabalho, como: quantas das nossas horas são realmente produtivas? Talvez a resposta não esteja na quantidade de dias trabalhados, mas na qualidade deles.
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