China começa a recrutar profissionais de tecnologia diretamente no ensino médio, pulando a universidade

O mercado de talentos em IA na China não pode esperar pela graduação

Recrutamento de trabalhadores na China
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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A China está redefinindo silenciosamente quem conta como talento tecnológico. Algumas de suas grandes empresas do setor começaram a ignorar a universidade e a recrutar diretamente em escolas de ensino médio, em um movimento que indica que criatividade e capacidade de aprendizado valem mais do que diplomas. O que até agora parecia algo pontual está começando a se consolidar como uma estratégia deliberada e amplamente aceita na busca por talentos.

A tendência fica mais clara com alguns exemplos:

  • Genius Youth, da Huawei. Desde 2019, a empresa mantém um programa de recrutamento voltado à busca de jovens gênios.
  • A incubadora de talentos de Xangai de Zhang Yiming, fundador da ByteDance: o objetivo é contratar, todos os anos, 30 pesquisadores em formação, entre 16 e 18 anos, para treiná-los em computação e IA.
  • A Geely possui um programa de estágio para estudantes do último ano do ensino médio, com mentoria direta de seus executivos.
  • A Tencent mantém desde 2019 o Spark Program, um programa anual para selecionar estudantes com alto potencial para estágios na empresa. A empresa também possui um programa de verão exclusivo para apenas 10 alunos do ensino médio, conforme relatado pelo Sixth Tone.

Durante décadas, o recrutamento no setor de tecnologia se baseou em dois pilares: as empresas contratavam nas universidades e o imaginário do setor celebrava o gênio que abandonava os estudos. O fato de empresas do porte de Tencent, Huawei, ByteDance e Geely ignorarem ambas as etapas e irem diretamente às escolas não é por acaso: é um sinal de que a velocidade das mudanças na IA está tornando obsoleto o modelo tradicional de formação. Se o talento que as empresas precisam não está disponível no ensino superior quando elas precisam, o mercado procura onde encontrá-lo — e está encontrando mais cedo.

Mais engenheiros, menos artistas

A China vem há décadas acelerando na formação: é um celeiro mundial de engenheiros e está se diversificando em direção ao ensino técnico. É verdade que, por trás dessa realidade, há planos do governo, que está eliminando cursos de artes em favor de áreas estratégicas, como as relacionadas à IA. A cereja do bolo é a percepção sobre as universidades chinesas e sua tendência à memorização em detrimento do pensamento crítico e da criatividade, uma crítica documentada há décadas, como aponta um relatório de Harvard.

E, em um nível mais profundo, está a necessidade: a corrida por talentos tecnológicos do gigante asiático é intensificada por restrições ocidentais ao acesso às tecnologias mais avançadas. Nesse cenário, a autossuficiência se torna prioridade absoluta, seja tecnológica ou de capital humano.

O Sixth Tone traz declarações de Li Shufu, presidente da Geely, feitas durante o evento de apresentação de seu programa de estágios: “Na era da IA, existe uma lacuna entre o talento que as empresas precisam e o que as universidades oferecem”. Também traz o depoimento de um profissional de recursos humanos de uma empresa de inteligência artificial que destaca diretamente a questão da criatividade. Pessoas mais jovens, que ainda não têm esquemas mentais rigidamente formados, podem imaginar soluções e produtos diferentes, fora do padrão acadêmico — o que, em alguns contextos, pode ser uma vantagem competitiva.

Fora da China

O questionamento do diploma universitário como filtro de talento é um fenômeno global que está começando a ultrapassar fronteiras. Uma das empresas mais agressivas na implementação dessa ideia é a estadunidense Palantir, que, no ano passado, recrutou 22 jovens recém-formados no ensino médio de alto nível (candidatos a universidades de elite) para um programa de estágios remunerados com possibilidade de contratação direta. É a sua “anti-bolsa”.

Sergey Brin também declarou que o Google contrata muitas pessoas sem graduação e que elas conseguem se virar de maneiras pouco convencionais. Os sinais convergem: o modelo de recrutamento, de Shenzhen ao Vale do Silício, aponta para uma mudança nos segmentos mais avançados, priorizando a capacidade em vez dos diplomas.

Imagem | kimmi jun e LYCS Architecture

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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