Uma picada semanal, o apetite desaparece e os quilos reduzem rapidamente. Para milhões de brasileiros, as canetas emagrecedoras pareciam a resposta ideal para o emagrecimento. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) confirmou que investiga seis mortes suspeitas relacionadas ao uso desses medicamentos.Segundo a agência, as notificações envolvem casos de pancreatite aguda, uma inflamação grave do pâncreas.
Notificações de pancreatite têm crescido nos últimos cinco anos
Dados do sistema VigiMed, usado para monitorar eventos adversos de medicamentos no país, mostram um crescimento contínuo das notificações de pancreatite entre 2020 e 2025. No total, 145 casos foram associados ao uso de canetas emagrecedoras nesse período, além de seis mortes sob investigação.
Os medicamentos pertencem à classe dos agonistas do GLP-1, indicada originalmente para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. Entre as substâncias monitoradas estão: semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida.
Segundo o levantamento, houve um aumento progressivo de casos: um registro em 2020, 21 em 2021, 23 em 2022, 27 em 2023, 28 em 2024 e 45 em 2025.
A Anvisa informou que a possibilidade de pancreatite já consta nas bulas desses medicamentos como evento adverso conhecido, mas reforçou que as notificações “não significam comprovação de relação direta com o uso do produto”.
Uso estético indiscriminado e automedicação podem causar riscos
Remédios desenvolvidos para tratar obesidade mórbida ou diabetes, como Ozempic e Mounjaro, vêm sendo usados por pessoas que desejam resultados rápidos no processo de emagrecimento. Especialistas alertam que o principal problema não é apenas o medicamento, mas o uso indiscriminado e sem acompanhamento médico.
Segundo o Célio Geraldo de Oliveira Gomes, gastroenterologista da Rede Mater Dei e do Hospital das Clínicas da UFMG, a hipótese para a relação entre as canetas e a pancreatite está ligada a “uma estimulação anormal das células do pâncreas, que altera a secreção e a composição das enzimas digestivas”.
Sinais de alerta para casos de pancreatite
Médicos e a própria Anvisa orientam que usuários desses medicamentos procurem atendimento médico ao identificar sinais que podem indicar o início de uma pancreatite.
Os principais sintomas são:
- Dor abdominal intensa, que pode irradiar para as costas;
- Vômitos persistentes, sem alívio da dor;
- Inchaço abdominal repentino.
Em nota, a farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que a bula do produto já alerta sobre a pancreatite aguda como reação adversa incomum. A empresa ainda afirmou que monitora e relata continuamente informações sobre segurança de seus medicamentos.
Casos também são registrados fora do Brasil
A preocupação não é exclusiva das autoridades brasileiras. Em janeiro, o Reino Unido também relatou mortes atribuídas à inflamação grave do pâncreas em pacientes que usaram medicamentos da mesma classe.
A Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA) recomendou que médicos e pacientes fiquem atentos aos sintomas, destacando que alguns casos foram especialmente severos.
Embora o risco absoluto seja considerado baixo, especialistas afirmam que o aumento do uso indevido eleva as chances de complicações. “Os efeitos dessa classe de medicamentos no pâncreas são uma preocupação desde o início dos estudos clínicos há 20 anos”, afirma explica Bruno Halpern, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).
Foto de capa: MillaF/Shutterstock
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