"Não vou dirigir nesse dia" virou uma das frases de sobrevivência nas cidades da Espanha para fugir do colapso iminente gerado pelo turismo de eclipse

A expectativa pelo eclipse solar de 12 de agosto está transformando Maiorca em um grande teste de mobilidade, turismo e fiscalização

Maiorca
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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No dia 12 de agosto deste ano, por volta das oito da noite, uma cidade comum na costa de Maiorca, uma ilha da Espanha, presenciará dois eclipses simultaneamente: o eclipse solar e o eclipse do seu próprio modelo de mobilidade. O fenômeno astronômico deve atrair milhares de turistas em busca dos melhores pontos de observação, aumentando a pressão sobre estradas, estacionamentos e o transporte da ilha. Apesar de os turistas serem bons para a economia, essa movimentação tem gerado preocupação entre moradores e autoridades.

Entre os principais desafios está a atuação de motoristas que oferecem transporte sem licença. O problema já é alvo de reclamações em cidades como Calvià, Marratxí, Puigpunyent, Esporles, Valldemossa e Deià. Do Aeroporto de Palma aos bairros boêmios da capital, associações de taxistas denunciam a falta de fiscalização sobre os chamados "táxis piratas". Enquanto alguns moradores afirmam que sequer pretendem tirar o carro da garagem no dia do eclipse para evitar congestionamentos, outros já improvisam serviços para transportar turistas até os mirantes mais disputados.

Por que Maiorca virou o lugar mais disputado para assistir ao eclipse

Maiorca está literalmente localizada no final da faixa de totalidade do eclipse solar. É o último lugar na Espanha a ver o dia escurecer por pouco mais de um minuto, com o sol se pondo sobre o Mediterrâneo. Em Palma, o Instituto Geográfico Nacional calcula que o eclipse começará por volta das 19h38 e atingirá seu ápice por volta das 20h32, com o sol a apenas 2 graus acima do horizonte. Ou seja, tão baixo que qualquer prédio, colina ou pinhal poderá atrapalhar a vista perfeita.

E, claro, se a Fundação de Astronomia e Astronáutica de Maiorca vem explicando há meses que nem todas as áreas da ilha verão o pôr do sol da mesma maneira, parte do turismo ficará à mercê dessa dinâmica. O Governo das Ilhas Baleares e a Universidade das Ilhas Baleares chegaram a organizar "exercícios de visibilidade" para que as pessoas possam ir aos seus supostos mirantes e verificar por si mesmas se, na prática, o pôr do sol é visível ou não: um ensaio geral para o que será a batalha por uma faixa de horizonte desobstruída.

A corrida pelos mirantes perfeitos já começou

Qual é a melhor varanda, a melhor casa de pedra com vista desafogada para o oeste, ou o miradouro natural mais privilegiado? Já lhe dizemos: a costa da Serra de Tramuntana e alguns trechos a sudoeste e sudeste levam vantagem. E as redes sociais estão fervilhando com o assunto há algum tempo: hotéis rurais como Cas Xorc e áreas como Playa de Muro vendem há meses pacotes que incluem esse "ponto de vista privilegiado" e acomodações especialmente projetadas para garantir a foto perfeita durante o apagão. 

Grupos especializados no Facebook , companheiros de escalada e mapas interativos: não é difícil encontrar até mesmo discussões técnicas sobre se o sol estará ou não escondido atrás de uma crista de pinheiros em determinada vila no momento crucial. 

O eclipse também virou um grande negócio

Mas, embora agências e empresas locais organizem passeios de barco para observar o eclipse em alto mar, com guias, binóculos para o pôr do sol e óculos certificados incluídos, as irregularidades no transporte são um problema que nenhuma fiscalização parece resolver. 

Serviços de transporte ilegais fora do aeroporto, com carros sem licença e veículos de transporte por aplicativo abordando passageiros diretamente na rua, estão causando dores de cabeça para os empregadores nas áreas rurais. Não estamos falando apenas de Magaluf ou Santa Ponça: carros particulares estão oferecendo traslados, até mesmo em micro-ônibus, anunciando via WhatsApp. Em teoria, multas que variam de €15.000 a €25.000 estão previstas para qualquer veículo que opere sem um serviço previamente agendado, de acordo com a Lei 4/2014 sobre Transporte Terrestre das Ilhas Baleares.

Conforme consta no Diário Oficial do Estado (BOE), qualquer veículo que transporte passageiros sem reserva prévia — especialmente serviços de transporte por aplicativo ou sob demanda — está legalmente envolvido em solicitação ilegal de clientes e é classificado como uma infração grave ou gravíssima. A Câmara Municipal de Formentera, por exemplo, já aplicou multas de € 6.001 por oferecer serviços de táxi sem autorização.

A explosão da demanda abriu espaço para um velho problema

Se já existem trabalhos não autorizados nas estradas numa típica terça-feira de agosto, o que acontece quando milhares de pessoas escolhem o mesmo minuto para ir ao mesmo lugar? O fluxo de turistas é tão grande — os preços chegam a variar entre 30 e 50 euros por hora — que parece valer a pena para alguns. 

A PIMEM-Taxi (Associação Maiorquina de Taxistas Autônomos, membro da PIMEM) denuncia há anos que, logo com o início da temporada, os "táxis piratas" voltam a operar no Aeroporto Son Sant Joan mais cedo, com meia dúzia de empresas ilegais que se aproveitam das lacunas no serviço oficial. Por isso, a Câmara Municipal de Palma limitou o número de táxis em operação no aeroporto a 25% durante uma semana por mês, a fim de garantir o serviço e evitar que o excesso de procura seja atendido por particulares.

Mais fiscais, menos taxistas clandestinos  

Duas pessoas usando óculos para eclipses Óculos certificados são indispensáveis para observar o eclipse solar sem colocar a visão em risco

Diante de um conflito que persiste há cinco anos, o Governo das Ilhas Baleares respondeu aumentando o número de fiscais. Em junho, ativou o " Comitê de Combate às Operações Clandestinas " no setor de transporte ilegal e turismo, coordenado pela Diretora-Geral de Mobilidade, Lorena del Valle. Os taxistas não acreditam que isso seja suficiente e afirmam que somente uma fiscalização policial rigorosa poderá acabar com esses táxis improvisados ​​operados por particulares que transportam turistas de um lugar para outro.

O evento astronômico do século, que nas Ilhas Baleares está sendo vendido como uma oportunidade única de observação, está se tornando um laboratório a céu aberto para a gestão do conflito entre os táxis tradicionais licenciados, os serviços de transporte por aplicativo e qualquer outro que aproveite a onda para ganhar alguns euros sem passar pela etapa de largada.

O outro grande protagonista do eclipse são os óculos: a Fundação de Astronomia de Maiorca alertou que serão necessárias pelo menos 100 mil unidades para atender à demanda de moradores e turistas. E atenção: óculos de sol comuns, raios-X e gambiarras caseiras não servirão.

Farmácias, óticas e lojas de souvenirs estão servindo como pontos de distribuição, mais ou menos improvisados, com campanhas específicas para prevenir danos à visão. Nessa mistura de entusiasmo cosmológico e ansiedade logística — reservas feitas com meses de antecedência, moradores planejando "não subir ao mirante naquele dia" por medo de superlotação e câmaras municipais encarando com suspeita seus planos de mobilidade para o verão — a estrada reina.

Claro que nem tudo são flores: os preços disparam e as filas no grande dia podem estragar a experiência. A única conclusão lógica é ter cautela e tentar planejar a viagem o máximo possível. Então, o cenário está montado: no momento do eclipse, se tudo correr bem, milhares de pessoas estarão assistindo. O resto do dia será pura política: fiscais, patrulhas, licenças, aplicativos, pacotes turísticos e carros estacionados onde não deveriam.


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