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Quando o Brasil inundou a Amazônia para criar um reservatório, provocou algo diferente: um vasto cemitério de árvores e animais

Um experimento gigantesco e não intencional que demonstrou por que rotular uma fonte de energia como "renovável" nunca é suficiente para determinar seu verdadeiro custo

Quando o Brasil inundou a Amazônia para criar um reservatório, provocou algo diferente: um vasto cemitério de árvores e animais.
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Fabrício Mainenti

Redator

Em 1981, em meio à estratégia brasileira de grandes projetos de infraestrutura para desenvolver a Amazônia, teve início a construção da usina hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, ao norte de Manaus.

O enchimento do reservatório começou em 1987, e a usina foi inaugurada em 1989 com uma capacidade instalada de 250 MW. Para alcançar essa potência, foi necessária a criação de um lago com cerca de 2.360 km² — uma área maior do que a ilha de Tenerife.

Uma questão de escala

O problema estava na própria geografia: um rio relativamente pequeno que corria por um terreno extraordinariamente plano significava que vastas extensões de terra precisavam ser inundadas para gerar uma quantidade comparativamente modesta de energia hidrelétrica.

De fato, um estudo comparativo publicado em 2018 resumiu isso com uma estatística contundente: Balbina sacrificou 35 vezes mais floresta por megawatt de capacidade instalada do que a usina de Tucuruí, também na Amazônia.

250 MW e um cemitério de árvores

Quando o rio Uatumã foi represado, a água se espalhou lateralmente pela floresta tropical, submergindo milhões de árvores — algumas estimativas sugerem mais de 160 milhões. Antigos pontos mais elevados transformaram-se em milhares de ilhas (um estudo contabilizou 3.546), e essa fragmentação foi, inicialmente, até vista como um possível benefício ambiental: ilhas de floresta que sobreviveriam, cercadas pelo reservatório.

Ocorreu o oposto. Pesquisas posteriores revelaram que muitos desses fragmentos eram pequenos e isolados demais para sustentar seus ecossistemas originais, levando a uma perda progressiva da vida animal e vegetal.

Balbina Balbina

Uma verdadeira enxurrada de espécies

A ariranha oferece um dos exemplos mais contraintuitivos. Após a inundação, seu habitat aquático potencial nos arredores de Balbina aumentou 67 vezes, e sua população cresceu de aproximadamente 140 para 280 indivíduos; no entanto, pesquisadores calcularam que, se o novo habitat tivesse funcionado como o antigo, a população deveria ter chegado perto de 1.250 animais.

A explicação estava abaixo da superfície: Balbina havia substituído rios de correnteza rápida por um lago gigantesco de águas lentas e transformado as comunidades de peixes.

A decomposição inicial da floresta desencadeou uma explosão de nutrientes que favoreceu temporariamente espécies como piranhas e tucunarés, mas as populações de peixes migratórios sofreram declínio posteriormente — levando consigo parte das presas disponíveis —, e as zonas profundas do reservatório contêm águas pobres em oxigênio, onde os peixes mal conseguem sobreviver.

Quando o Brasil inundou a Amazônia para criar um reservatório, provocou algo diferente: um vasto cemitério de árvores e animais.

A floresta desapareceu, mas o seu carbono não

Balbina também derrubou uma noção há muito difundida sobre a energia hidrelétrica: a de que um reservatório — por gerar eletricidade sem queimar combustível — seria automaticamente uma fonte de energia limpa. A floresta submersa e a matéria orgânica que entra no reservatório decompõem-se, e parte desse carbono acaba retornando à atmosfera na forma de CO₂ e metano.

Um estudo que monitorou Balbina entre 2004 e 2006 calculou as emissões de CO₂ referentes a 2005 em 2.450 gigagramas de carbono a montante e outros 81 a jusante; ao considerar o equivalente em CO₂ das emissões de metano estimadas anteriormente, o total de emissões de gases de efeito estufa situou-se em aproximadamente 3 teragramas de carbono por ano.

Os autores compararam esse valor a cerca de metade das emissões de CO₂ resultantes da queima de combustíveis fósseis na cidade de São Paulo.

Gases passando pelas turbinas

A operação de uma hidrelétrica em região tropical envolve um mecanismo menos visível. Águas profundas, carregadas de gases dissolvidos, entram nas turbinas; ao saírem a jusante e sofrerem uma queda brusca de pressão, parte desse CO₂ é liberada na atmosfera.

Em Balbina, pesquisadores calcularam que cerca de 53% do CO₂ que chegava às turbinas era liberado logo na saída, e continuaram a detectar altos níveis de emissão ao longo dos primeiros 30 quilômetros do rio Uatumã.

O estudo também descreve um reservatório com profundidade média de apenas cerca de dez metros, tempo médio de residência da água de aproximadamente um ano e produtividade energética extraordinariamente baixa por unidade de área inundada: cerca de 0,14 watts por metro quadrado.

O desastre persiste 40 anos depois

O capítulo mais recente dessa história exige olhar na direção oposta à do reservatório. Um estudo publicado em 2026 na revista Forest Ecology and Management examinou as áreas de igapó (floresta inundada) a jusante e constatou cicatrizes persistentes decorrentes da perturbação causada pelo enchimento do reservatório de Balbina, entre 1987 e 1989.

Ao reter a água, a barragem criou uma espécie de seca hidrológica artificial em ecossistemas que haviam se adaptado, ao longo de milênios, ao pulso de cheia regular do rio Uatumã; um grande número de árvores morreu, e a floresta que posteriormente colonizou as áreas afetadas assumiu uma composição diferente

Os pesquisadores estabeleceram parcelas de estudo em intervalos de aproximadamente dez quilômetros e identificaram um limite ecológico na altura da marca de 120 quilômetros: perto da barragem, predominavam árvores com capacidade de rebrota e espécies associadas a áreas perturbadas, enquanto as zonas mais distantes preservavam maior riqueza de espécies e características típicas de florestas maduras.

Quando o Brasil inundou a Amazônia para criar um reservatório, provocou algo diferente: um vasto cemitério de árvores e animais.

Balbina mudou tudo

Essa é, possivelmente, a lição mais importante que a barragem nos ensinou. A montante, uma vasta extensão de floresta terrestre transformou-se em um lago, fragmentando a paisagem em milhares de ilhas e transformando ecossistemas inteiros; a jusante, ocorreu o oposto, pois florestas que dependiam de inundações periódicas deixaram de receber água nos momentos e pelas durações aos quais estavam adaptadas.

Décadas mais tarde, ainda se observam mudanças na diversidade, na estrutura e na biomassa vegetal. Balbina demonstrou que a pegada ecológica de uma barragem tropical não pode ser calculada simplesmente traçando-se o perímetro do reservatório em um mapa; ela pode se estender muito além desses limites.

A ironia reside em uma abordagem diferente em relação à eletricidade

Em 2016, propôs-se instalar painéis solares flutuantes em parte da superfície criada pela usina hidrelétrica de Balbina. O plano previa inicialmente uma instalação piloto de 5 MW, com a possibilidade posterior de expansão para cerca de 300 MW — aproveitando o reservatório existente sem ocupar nenhuma área adicional de terra amazônica.

A proposta continha um paradoxo difícil de ignorar: utilizar energia solar para extrair mais potência de uma enorme superfície artificial que surgira justamente devido à eficiência extremamente baixa no uso do solo pela usina hidrelétrica.

Em certo sentido, era uma tentativa de fazer com que aqueles milhares de quilômetros quadrados — inundados décadas antes — finalmente gerassem mais eletricidade, sem a necessidade de inundar um único metro quadrado adicional.

Construir no local errado pode ser um desastre

O problema não era simplesmente a capacidade instalada de 250 MW, nem se resumia a dizer que Balbina "produz menos do que três turbinas eólicas" — três turbinas modernas e convencionais instaladas no mar (offshore) não igualam sua capacidade nominal de 250 MW, e comparar capacidade instalada com produção média pode levar a conclusões equivocadas.

A lição verdadeiramente extraordinária reside na relação entre o que foi ganho e o que foi sacrificado. Uma barragem construída em um rio pequeno — em um terreno excessivamente plano — exigiu a inundação de aproximadamente 2.360 km² da Amazônia; ela fragmentou a floresta, transformou comunidades aquáticas, gerou emissões significativas de gases de efeito estufa e alterou florestas situadas a até 120 quilômetros a jusante.

Assim, quase quatro décadas de pesquisa transformaram Balbina em algo mais do que apenas um fiasco energético: ela se tornou um experimento gigantesco e não planejado, que demonstra por que classificar uma fonte de energia como "renovável" nunca é suficiente para determinar seu verdadeiro custo ambiental.

Imagem de capa | SeabirdsSeabirdsCesar Augusto Chirosa Horie

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