A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e, durante muito tempo, foi considerada uma região ocupada apenas por pequenos grupos indígenas espalhados pela mata. No entanto, um estudo publicado nesta quarta-feira (29) na revista Nature está mudando completamente essa visão. Utilizando uma tecnologia de escaneamento a laser que atravessa a vegetação, pesquisadores identificaram centenas de estruturas arqueológicas escondidas no sudoeste amazônico e concluíram que a região pode ter abrigado entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes há cerca de dois mil anos. A descoberta reforça a existência da civilização Aquiry, um povo altamente organizado que moldou a paisagem amazônica muito antes da chegada dos europeus.
Tecnologia revelou uma Amazônia muito diferente da que imaginávamos
Durante centenas de anos, a ideia predominante era de que a floresta amazônica permanecia praticamente intocada antes da colonização europeia. No enetanto, essa nova descoberta revela que a floresta foi uma região profundamente transformada por sociedades antigas. Para chegar a essa conclusão, pesquisadores brasileiros e finlandeses sobrevoaram aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados entre o Acre, Amazonas, Rondônia, Bolívia e Peru utilizando a tecnologia LiDAR.
O sistema dispara pulsos de laser a partir de uma aeronave e consegue atravessar parte da copa das árvores, criando um mapa tridimensional do terreno mesmo em áreas de floresta densa. É como se o equipamento fizesse um “raio X" da floresta, que permitiu revelar estruturas invisíveis a satélites e observações convencionais.
Durante os voos, foram identificadas 432 estruturas de terra, das quais apenas 36 eram conhecidas anteriormente. Entre elas estão grandes geoglifos, figuras geométricas escavadas no solo, além de aterros, caminhos e grandes recintos que provavelmente funcionavam como centros cerimoniais, políticos e de encontro entre diferentes comunidades.
E esse pode ser apenas o começo da descoberta. Combinando os dados do LiDAR com imagens de satélite e levantamentos arqueológicos anteriores, os pesquisadores estimam que ainda existam entre 24 mil e 30 mil estruturas escondidas sob a vegetação amazônica, grande parte delas pertencentes à civilização Aquiry e ainda desconhecidas pela ciência.
Milhões de pessoas viveram na Amazônia — e a floresta guardou esse segredo por séculos
As novas descobertas mudam a forma como entendemos quem viveu na Amazônia antes da chegada dos europeus. Com base na dimensão das obras e no esforço necessário para construí-las e mantê-las ao longo de séculos, os pesquisadores estimam que a civilização Aquiry tenha reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas em seu auge, por volta do ano 200 d.C..
Outro ponto que chamou atenção foi o profundo conhecimento que esse povo possuía sobre a floresta. Ao invés de desmatar áreas, eles aproveitavam os ciclos naturais do bambu para abrir espaço para os geoglifos, além de cultivar alimentos como milho, mandioca e feijão e modificar a paisagem de maneira planejada. A descoberta mostra que a Amazônia não era uma floresta intocada, mas um ambiente profundamente transformado por sociedades que souberam ocupar e manejar seus recursos por muitos anos.
Embora ainda existam muitas perguntas sem resposta, como o motivo do desaparecimento da civilização Aquiry, os pesquisadores acreditam que novas escavações e o uso do LiDAR poderão revelar novas estruturas ainda escondidas. No fim das contas, a maior descoberta talvez não sejam os geoglifos, mas a confirmação de que a Amazônia teve um passado muito mais populoso, organizado e transformado pela ação humana do que se acreditava.
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