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A solução para o caos de ter tantos satélites no céu é ridiculamente simples: a tinta mais preta do mundo

Há cada vez mais satélites, e vemos cada vez menos estrelas; um revestimento ultranegro visa mudar isso

A solução para o caos de ter tantos satélites no céu é ridiculamente simples: a tinta mais preta do mundo.
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Fabrício Mainenti

Redator

Noites de verão como esta são perfeitas para se afastar da civilização, olhar para cima e maravilhar-se com o espetáculo do céu. O eclipse de alguns dias atrás é um excelente exemplo, mas há também as lendárias Perseidas — ou simplesmente a contemplação das estrelas e constelações... e de uma infinidade de satélites.

Pois, de fato, o céu está repleto de satélites, e esses números não param de crescer. Como os lançamentos de satélites continuam, surgiu uma ideia para, pelo menos, torná-los invisíveis enquanto estão lá em cima: pintá-los de preto absoluto.

Houston, temos um problema

Além do fato de que a órbita da Terra já se transformou em um enorme ferro-velho espacial, o enorme volume de satélites prejudica o trabalho dos telescópios; eles refletem a luz solar, criando reflexos e rastros luminosos. Consequentemente, nossa visão de asteroides ou galáxias distantes fica comprometida — ou totalmente bloqueada.

A autora principal do estudo, a astrofísica Astha Chaturvedi, da Universidade de Surrey, resume a situação assim: "O céu noturno é uma das janelas mais antigas da humanidade para o universo, mas observar o que há nele está se tornando cada vez mais difícil". Com muitas instituições e empresas planejando lançar ainda mais satélites, o problema só tende a aumentar.

Segundo a Agência Espacial Europeia, existem atualmente mais de 14 mil satélites em órbita, e a Universidade de Surrey estima que esse número possa chegar a 60 mil até 2030.

Preto absoluto

A equipe da universidade britânica propôs o uso de um revestimento ultrapreto — o Vantablack 310 — para verificar se ele consegue reduzir o brilho dos satélites a ponto de não interferir mais nas observações astronômicas. Projetado para resistir às condições do espaço, o material absorve quase toda a luz incidente, refletindo apenas 2%, de acordo com testes de laboratório.

Além disso, a pequena quantidade de luz refletida é dispersa de forma difusa, evitando o ofuscamento.

Os testes

Nos testes, um satélite com esse revestimento apresentou um brilho quase tão tênue quanto o recomendado pela União Astronômica Internacional para não atrapalhar os astrônomos; na pior das hipóteses, registrou uma magnitude de 6,7 — logo abaixo do limite recomendado de 7 (sendo que, nessa escala, quanto maior o número, menor o brilho).

Para efeito de comparação, um satélite Starlink da SpaceX sem o revestimento apresentou magnitude de apenas 3,7, o que significa que era significativamente mais brilhante. Sob o microscópio, a equipe descobriu que a estrutura do revestimento lembra a de um coral, apresentando minúsculos vazios que "capturam" a luz em vez de refleti-la.

Esta não é a primeira tentativa

A ciência já buscou anteriormente mitigar as interferências causadas por satélites. A SpaceX havia testado dois métodos para escurecer seus satélites Starlink: um utilizando tinta escura (DarkSat) e outro empregando uma viseira de bloqueio solar (VisorSat). Ambos os projetos reduziram o brilho, mas não o suficiente. O Vantablack 310 mostrou-se superior a ambas as propostas da SpaceX.

A inovação por trás do Vantablack 310 reside no fato de que ele não depende de peças móveis nem de modificações estruturais na espaçonave; trata-se, essencialmente, de uma mudança de material. Como explica Chaturvedi

"Decisões relativamente simples sobre materiais poderiam fazer uma diferença significativa na forma como os satélites afetam as observações astronômicas, sem exigir grandes alterações no projeto da missão".

Os próximos passos

Após diversos testes e comparações em ambientes controlados, o revestimento será testado em condições reais a bordo da missão Jovian-1 — um pequeno satélite universitário desenvolvido pelas universidades de Surrey, Portsmouth e Southampton. Isso determinará se o material apresenta no espaço o mesmo desempenho que demonstra em laboratório.

Sim, mas...

Mesmo que o Vantablack 310 tenha sucesso no espaço, a equipe ressalta que "este estudo aborda apenas o desempenho óptico" do material; o comportamento térmico da espaçonave, a durabilidade ambiental e a integração completa do sistema ainda precisam ser verificados — etapas que exigem mais testes extensivos, tanto em laboratório quanto no espaço.

Além disso, mesmo que o brilho seja reduzido — tornando o objeto menos visível e quase imperceptível —, o problema persiste: a quantidade de detritos espaciais é enorme e crescente, acarretando outros riscos, como impactos ambientais e possíveis colisões.

Imagem de capa | ChatGPT

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