Groenlândia se torna a peça-chave da internet europeia: Bruxelas planeja um cabo submarino que contorne os EUA

A União Europeia quer viabilizar o “Cabo Panártico”, com planos de expansão pelo Canadá até Japão e Coreia do Sul, para blindar suas redes e reduzir a dependência das rotas e da infraestrutura norte-americana

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Bárbara Castro

Redatora

Bruxelas quer instalar um cabo submarino de internet para conectar a Groenlândia diretamente à União Europeia. E a iniciativa não para por aí: também há planos para estender o trajeto pelo Canadá até o Japão e a Coreia do Sul. O projeto, batizado de Cabo Panártico e publicado pela Comissão Europeia, é uma das principais ambições estratégicas do bloco no Ártico — além de ser um caminho crucial para reforçar a segurança digital de todo o continente.

Mais de 99% de todo o tráfego da internet mundial passa por cabos submarinos, sustentando desde transações financeiras até serviços em nuvem e comunicações globais. Diante da crescente vulnerabilidade da Europa em diversas frentes, o bloco decidiu agir.

Hoje, a maior parte do tráfego de dados entre a Europa e a Ásia cruza o Mar Vermelho, onde os ataques dos rebeldes houthis à navegação elevaram os riscos de manutenção dessas estruturas. No Mar Báltico, vários navios já chegaram a arrastar âncoras e romper cabos. Para completar, o desgaste nas relações com Washington torna a dependência da infraestrutura controlada pelos EUA cada vez mais desconfortável.

A estratégia apoia “uma conexão de cabo submarino soberana, segura e resiliente que conecte a Groenlândia diretamente à UE”, segundo o documento da Comissão. O bloco comunitário já destinou € 107 milhões à conectividade da Groenlândia, afirma a própria instituição. O projeto nasceu a partir de um acordo firmado em 2025 entre empresas europeias, centros de pesquisa e uma operadora de telecomunicações da Groenlândia, e agora deve receber apoio financeiro do programa “Conectar a Europa”.

O plano também prevê a criação de um centro de cabos do Ártico, que ficaria aberto aos países-membros da UE, à Noruega e à Islândia. A estrutura ficaria responsável por monitorar e proteger as conexões no Atlântico Norte e no Ártico, além de acelerar manutenções. Bruxelas também pretende financiar cabos com “tecnologias inteligentes”, capazes de operar como sistemas de alerta precoce.

Elisabeth Braw, pesquisadora do Atlantic Council, declarou ao portal Ars Technica que a geopolítica “praticamente não desempenhou papel algum” nas décadas passadas, mas que agora devemos esperar mais cabos interligando nações amigas e evitando as águas de rivais. Ela ressalta ainda que, há apenas cinco anos, o projeto da Groenlândia não seria considerado comercialmente viável.

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A nova diretriz da UE foi divulgada semanas após Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia assinarem um pacto de segurança para manter a autonomia groenlandesa sob a coroa dinamarquesa, ao mesmo tempo em que ampliaram o acesso militar norte-americano. Jo Inge Bekkevold, do Instituto Norueguês de Estudos de Defesa, disse ao Nikkei Asia que a medida europeia parece focada em estreitar laços com a Groenlândia em resposta à Casa Branca, e não tanto em conter a China — país que é citado apenas uma vez em todo o relatório.

Segundo a Euronews, a proposta da Comissão ainda não estabelece um trajeto definitivo, orçamento ou prazo de execução, tampouco esclarece quem vai financiar, possuir ou operar o cabo. Instalar e manter estruturas nas águas árticas também demanda embarcações especializadas. O veículo pontua que o texto chega a considerar a propulsão nuclear para viabilizar as operações diante do frio extremo.

Juha Saunavaara, da Universidade de Hokkaido, explicou ao Nikkei Asia que Tóquio trata o lançamento de cabos como uma atribuição do setor privado, dificultando o engajamento de verbas públicas. Além disso, os investimentos do Japão em projetos russos de hidrocarbonetos podem gerar impasses na cooperação.

O jornal asiático destaca ainda que o projeto Polar Connect, conduzido por instituições científicas nórdicas, pretende ligar o norte europeu ao Japão e à Coreia do Sul até 2031, enquanto o consórcio comercial Far North Fiber já estuda rotas parecidas. Em outra frente, a Bloomberg noticia que a norueguesa Bulk Infrastructure procura parceiros para construir o Leif Erikson, um cabo submarino planejado para interligar a Europa ao Canadá.

Matéria traduzida de Xataka*

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